Confira as nossas resenhas: Capitães da Areia

Quem são os Capitães da Areia?

 I Por Ligia Borges

I 8 de outubro de 2018

 

" e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche."
” e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche.”

Em Capitães da Areia, Jorge Amado lança mão da sua habilidade literária para trazer luz a um tema social que há muito perpassa a nossa sociedade e o faz por meio do relato de uma situação que, a meu ver, já se tornou atemporal. O autor nos convida a mergulhar nos subúrbios de Salvador para acompanhar a vida e o cotidiano dos meninos de rua: os temidos Capitães da Areia. Quem são? Onde vivem? O que fazem? Por que agem assim?

Um bando de crianças abandonadas entre 8 e 16 anos que vivem nas ruas de Salvador e são temidas e, ao mesmo tempo, ignoradas por uma sociedade que se sente vítimas delas.

Os garotos abandonados à própria sorte se refugiam num trapiche, lugar que utilizam para se abrigar, e preenchem sua vida – vazia de escola, moradia, comida, amor, respeito e carinho – com pequenos furtos, brigas  e diversos outros tipos de vandalismos que realizam pelas ruas de Salvador. Até aí, não vemos novidade alguma no relato dessa situação que qualquer reportagem de jornal daria conta de descrever. Continue reading “Confira as nossas resenhas: Capitães da Areia”

Confira as nossas resenhas: As intermitências da morte

O dia em que a morte decretou greve

I Por Ligia Borges

I 20 de agosto de 2018

 

 

A morte resolveu suspender as suas atividades. “ No dia seguinte ninguém morreu”. Assim Saramago começa a nos contar essa maravilhosa história que nos revela tanto sobre a genialidade do autor.  Com a sua imensa capacidade inventiva, ele dá voz e humanização a uma das figuras mais temidas da humanidade, a morte, e nos leva a refletir sobre o seu papel para o equilíbrio da vida e das instituições.

Sem nenhuma razão aparente, as pessoas simplesmente pararam de morrer num determinado país e, com o passar dos dias, uma série de instituições que dependiam da morte para existir começam a entrar em colapso. A igreja que vê o seu papel e até a sua própria condição de existência serem colocados em cheque porque sem a morte não há ressurreição, os hospitais, as casas funerárias e as seguradoras de vida são as primeiras instituições a se desesperarem diante do “ problema” e a pressionarem o Estado por uma solução. Este por sua vez se vê diante de uma crise sem saber ao certo quais medidas tomar para evitar um colapso social diante de situação tão inusitada.  O sistema previdenciário de pensões e aposentadorias, por exemplo, como ficaria diante da greve da morte? Continue reading “Confira as nossas resenhas: As intermitências da morte”

Causos Literários da Srta Borges: Se for de paz, pode entrar

Se for de paz, pode entrar

I Por Ligia Borges

I 2 de agosto de 2018

Já faz algum tempo que um leitor aqui do estoriando me fez um pedido. Ao ler o texto  O Jardim e a Literatura de Jorge Amado e Zélia Gattai  sobre a minha visita a Casa de do Rio Vermelho , em Salvador, ele me disse que gostaria de ler um outro texto menos informativo, menos jornalístico e mais subjetivo em que eu descrevesse as minhas emoções e sentimentos ao visitar aquele espaço. Esses dias, eu atendi o pedido dele e compartilho esse texto aqui com vocês, meus queridos leitores.

 

Brasília, 10 de julho de 2018

Evandro,

Já se passaram quatro meses desde que estive na Casa do Rio Vermelho, a residência onde viveu por mais de 40 anos o casal de escritores baianos Jorge Amado e Zélia Gattai. O tempo transcorrido desde que visitei o refúgio dos escritores fez com que eu tivesse uma outra visão da casa, dos objetos e até mesmo da  própria sensação experimentada durante aquela manhã em que me hipnotizei enquanto observava os detalhes e referências que marcaram a vida e a obra do casal dos escritores. O distanciamento dos fatos, às vezes, faz com que a nossa memória imprima uma espécie de idealização ou romantize algumas experiências que, neste caso, acredito se tratar de algo positivo, afinal de contas estamos falando de uma vivencia subjetiva e literária.

Se você tivesse me pedido para relatar essas experiências nos primeiros dias da minha visita, eu me prenderia a informações que apurei a respeito da vida do casal de escritores, das influências deles, da obra literária, como o fiz no outro texto, muito mais objetivo e informativo, pois a minha preocupação, certamente, era registrar os dados que colhi naquela visita e mostrar para as pessoas a existência desse espaço e o que ele oferecia em termos de insumo cultural para aqueles que estivessem de passagem por Salvador e quisessem conhecer um pouco mais da vida e obra dos escritores.

Passado esse tempo e superada essa necessidade informativa já que o outro texto cumpriu este papel que eu mesma me impus, quero compartilhar contigo aqui o que realmente senti visitando aquele espaço, me desprendendo um pouco da “obrigação” jornalística de te informar sobre a obra dos escritores, já que você se interessou mais pela minha experiência e emoções sentidas naquele espaço. Continue reading “Causos Literários da Srta Borges: Se for de paz, pode entrar”

Confira as nossas resenhas: Não leve a vida tão a sério

Como não levar a vida tão a sério?

 I Por Ligia Borges

I 10 de julho de 2018

 

O texto a seguir não se propõe a ser uma resenha propriamente dita, na verdade, se trata muito mais da minha experiência pessoal e de leitura de Não leve a vida tão a sério, de Hugh Prather.  Bem, não costumo ser muito adepta de livros que se propõem a traçar um manual de regras com passo a passo para você implementar ações de modo a melhorar a sua vida ou que tragam a receita de bolo para garantir a realização dos seus sonhos. Até já li alguns títulos por aí, mas ao contrário do que acontece com as obras literárias, que nunca abandono pela metade, o gênero autoajuda é o tipo que quando me enfadonha deixo logo pelo meio do caminho.

Segundo as pesquisas, esse tipo de leitura encontra-se entre as que mais têm aquecido o mercado editorial nos últimos tempos. As pessoas vêm cada vez mais se interessando pelos títulos que se propõem a fazer um trabalho de “ coaching”, ou seja, a ditarem a fórmula para que trilhem e obtenham sucesso nas mais diversas áreas: profissional, financeira, amorosa, espiritual e prometem a fórmula de sucesso para alavancar a mudança pessoal. As prateleiras das livrarias estão repletas desses títulos que prometem revolucionar a nossa forma de se colocar no mundo e oferecem a solução mágica para todos os nossos problemas. Mas será mesmo? Continue reading “Confira as nossas resenhas: Não leve a vida tão a sério”

Confira as nossas resenhas: O Conto da Ilha Desconhecida

Em busca da ilha desconhecida …

I Por Ligia Borges

I 9 de maio de 2018

 

” É necessário sair da ilha para ver a ilha … não nos vemos se não saímos de nós…”.   O conto da ilha desconhecida, de José Saramago, foi um presentinho que ganhei da mãe de um dos meus melhores amigos. E ela me disse: ” Achei o livro a sua cara, Liginha, espero que goste”.  Curioso que essa frase dela ficou na minha cabeça de modo que direcionou o meu olhar para a leitura. Confesso que enquanto percorria as páginas dessa história buscava um sentido, tentando entender por que ela havia associado o livro a mim.

Trata-se de um livro pequeno com uma edição bem bonita, cheia de aquarelas, da Companhia das Letras, daqueles que a gente senta e lê de uma tacada só. E entende num passo de mágica também? Não, não entende.

Apesar de ser um conto, texto com uma estrutura curta, estamos diante daquele tipo de leitura que te engana pelo tamanho. Digo isso porque a história te toma e faz com que você mergulhe num mar de reflexões tentando apreender o sentido de tudo aquilo que foi dito. Estamos falando de Saramago, meu povo, não é tão simples assim. Existe uma pluralidade de sentidos escondidos nas entrelinhas. Existem nuances que só ganham formas a partir da experiência pessoal e da maturidade de cada um. E acredito que algumas delas só tomam corpo mesmo com um pouco mais de tempo após a leitura. Continue reading “Confira as nossas resenhas: O Conto da Ilha Desconhecida”

Confira as nossas resenhas: Surpreendente!

Surpreendente paralelo entre a literatura, o cinema e a vida

I Por Ligia Borges

I 26 de março de 2018

Tem uma frase que faz parte do enredo do filme “ O fabuloso destino de Amelie Poulain” que diz mais ou menos o seguinte:  “ são tempos difíceis para os sonhadores”. Estabelecendo aqui um paralelo entre o cinema e a literatura, me arrisco a dizer que não existiria frase melhor para descrever Pedro, personagem principal da trama de Surpreendente!, do escritor Maurício Gomyde.

Pedro é um cara sonhador, daqueles que acreditam que com o seu jeito doce é capaz de sacudir o mundo. Estudante recém formado em Cinema aos 25 anos, o jovem cineasta sonha em utilizar a sétima arte como instrumento para tocar o coração das pessoas e melhorar a realidade a sua volta.

O rapaz é um otimista nato e vai tentando contagiar todos a sua volta com a sua paixão pelo cinema. Ele sonha em produzir o próprio filme, trabalha numa locadora de vídeos na periferia de São Paulo e promove num cineclube uma sessão de filmes que está quase sempre vazia, mas o desejo de emplacar os seus projetos o movem.  “ Preciso que ela (a dona Rebeca, que é a dona do espaço) continue acreditando na minha teoria de que o cinema, a música boa e a literatura são instrumentos da Santíssima Trindade para salvar o ser humano da derrota como espécie”. (pg.13)

Acontece que como cada um de nós, Pedro traz na bagagem as suas lutas e dilemas internos que vem tentando superar, um deles é a batalha contra uma cegueira degenerativa que contraria os prognósticos da medicina quando se estagna de forma inexplicável.

A questão toda é que a vida não obedece a scripts, o destino não aceita ser roteirizado porque este possui a sua forma própria de escrever os fatos e não abre mão dessa condição para dar voz e passagem a nossos desejos e anseios.  A maior parte dos acontecimentos não está sob nosso controle e é essa reflexão que faz com que essa história seja tão surpreendente. O destino de Pedro vai nos mostrar isso.

E como num roteiro em que a arte imita a vida, as coisas começam a sair do prumo e é, justamente, nesse ponto da história em que devo confessar que comecei a achar o nosso herói  um tanto quanto entediante para não falar outra palavra.

 A narrativa fica mais lenta, amarrada, parece que não deslancha e o leitor é obrigado a se deparar com a teimosia de um personagem que começa a se perder em seu próprio caos e encontra na sua turma de amigos a companhia para mergulhar em uma aventura rumo ao interior do Goiás, numa a viagem a Pirenópolis na qual Pedro tenta encontrar respostas para as suas angústias pessoais e seus amigos acreditam estar diante de um novo roteiro que vai revolucionar a historia do cinema, uma turma de inconsequentes em que começam a fazer um  tanto de bobagens em série. O autor até tenta romantizar um pouco essa busca do personagem e as aventuras da sua turma, mas devo confessar que achei essa parte da narrativa bem cansativa.

Mas a favor da trama, devo dizer que a história é cheia de pequenos detalhes que se conectam e imprimem à narrativa um ritmo de suspense, como se estivéssemos mesmo em um roteiro de cinema.

Enquanto pensava a respeito dessa trama e sobre a construção desses personagens, volto a traçar um paralelo entre a sétima (o cinema) e a sexta (a literatura) arte, em que me vem à mente uma frase atribuída a Chico Xavier que diz o seguinte, “a vida nem sempre segue a nossa vontade, mas ela é perfeita naquilo que tem que ser”.

E assim fiquemos com as lições que os personagens nos ensinam, eles sempre nos ensinam.

  “ A vida é complexa demais para ser esperada assim, como uma iluminação divina que vai bater à porta e entregar de bandeja todas as respostas. Pois, para seu governo, afirmo com todas as letras que essa encomenda nunca será entregue embalada para presente. Você precisa ir até ela.” (pg. 134). Essa frase é de Fit, o melhor amigo de Pedro.

 “ Aqui começa o maior filme de todos os tempos sobre as chances que o mundo coloca na vida das pessoas. Que as lições sejam aprendidas e voltemos milhões de vezes melhores do que quando partimos. Apenas os fortes sobrevivem, porque, mesmo a estrada sendo longa, já dizia o poeta: “Quem tem um porquê, enfrenta qualquer como.” ( pg. 146). Essa frase é de Cristal, a garota que na história lhe desperta um novo olhar para a vida.

Título: Surpreendente!

Autor: Maurício Gomyde

Editora: Intrínseca

Páginas: 272

Sinopse Oficial:

Aos 25 anos, recém-formado, Pedro está convencido de que é um sujeito muito especial, que tem a missão de usar o cinema como instrumento para melhorar o mundo. Diagnosticado na adolescência com uma doença degenerativa que o condenaria à cegueira, ele contraria a lógica da medicina quando a perda de sua visão estaciona de forma inexplicável. Enquanto comanda o último cineclube de São Paulo e trabalha em uma videolocadora da periferia, Pedro planeja seu próximo filme, a obra que vai consagrá-lo. E, para animar as coisas, conhece a intrigante Cristal, uma ruivinha decidida, garçonete e estudante de física nuclear, que mexe com seu coração.

A perspectiva idealista de Pedro, porém, sofre sérios abalos. Atormentado por um segredo, ele parte com os amigos Fit, Mayla e Cristal numa longa viagem até Pirenópolis, em Goiás, a bordo de um Opala envenenado. Com câmeras nas mãos e espírito de aventura, a equipe técnica improvisada está disposta a usar toda a sua criatividade na filmagem feita na estrada ao sabor de encontros inesperados e de sentimentos imprevisíveis. E o jovem cineasta descobre que, quando o destino foge do script, nada supera o apoio de grandes amigos.

Sobre o autor:

Maurício Gomyde nasceu em São Paulo e desde os três anos de idade vive em Brasília – “disparado a cidade mais bonita do mundo”. Surpreendente!  é seu sexto romance. Além de escritor, ele também é compositor e baterista.

Confira as nossas resenhas: Extraordinário

Extraordinário manifesto a favor da gentileza!

I Por Ligia Borges

I 5 de março de 2018

Gostei muito desse livro. Gostei de tal forma que tive dificuldade para falar sobre ele. É que depois do lançamento do filme tanto já se falou sobre Extraordinário que me pego pensando: “o que eu poderia falar de novo? O que poderia dizer para te convencer a ver esse filme ou a ler a história de August Pullman, o nosso Auggie”.

Ao contrário do que costumo fazer, dessa vez assisti ao filme primeiro que diga-se de passagem foi sucesso de bilheteria.  Eu achei o filme maravilhoso, saí do cinema com uma vontade imensa de comprar o livro e tê-lo em minha estante. E uma coisa extraordinária aconteceu, alguns dias depois não é que ganhei ele de presente!?

Confesso que acho complicada essa relação livro versus filme. Nem sempre as adaptações funcionam bem, geralmente, uma das partes deixa a desejar, no caso a segunda a ser lida ou vista. Apesar de, na maior parte das vezes, a decepção ser maior com filme – até mesmo porque é difícil competir com a imaginação –, o contrário, é raro, mas também pode acontecer de você gostar do filme e se decepcionar com o livro. Não foi o caso. Em Extraordinário, o melhor aconteceu: terminei a leitura e a achei maravilhosa também, parabéns aos roteiristas porque a adaptação ficou sensacional.

Filme baseado no livro Extraordinário de R. J. Palácio foi sucesso de bilheteria
Filme baseado no livro Extraordinário de R. J. Palácio foi sucesso de bilheteria

Tanto o filme quanto o livro conseguiram nos contagiar com a história de vida de um garotinho forte que nos mostra que a essência é superior a qualquer aparência. Essa é uma história de empatia, compaixão, aceitação e gentileza. É também uma história que faz com que a gente volte a ser criança e se identifique com muitos das dificuldades vividas por Auggie. Afinal quem de nós aí não teve as suas angústias na escola porque era tímido, ou porque era” popular” demais, ou porque era ” cê-dê-efe” ou porque tinha alguma deficiência. Dificuldades fazem parte da vida, mas Auggie nos mostra que não importa o tamanho da barreira que nos é imposta, ninguém tem o direito de nos limitar.

Esse é um livro de muitas histórias, muitas lições. É uma obra também sobre o valor da amizade, a importância dos amigos, nossos companheiros de jornada. Aqui eu destaco os muitos ensinamentos trazidos pelos amigos de Auggie: Jack Will e Summer. O livro nos mostra que amigos também erram, mas compreender que errou, pedir desculpa e construir uma nova relação também é uma lição sensacional trazida pelo livro. Durante a leitura, tomei a liberdade de grifar alguns trechinhos que chamaram a minha atenção. Vou compartilhar abaixo com vocês para que pensemos juntos a respeito disso tudo e possamos ser melhores em nossas relações cotidianas:

“ Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil”

“ Não é tudo um acaso, se fosse, o universo nos abandonaria à própria sorte. E o universo não faz isso. Ele cuida das suas criações mais frágeis de formas que não vemos …talvez seja uma loteria, mas o universo deixa tudo certo no final. O universo cuida de todos os seus pássaros.”

“Pensando bem, não sei por que fiquei tão estressado com isso. É engraçado como às vezes nos preocupamos muito com uma coisa e ela acaba não sendo nem um pouco importante.”

“ Porque não basta ser gentil. Devemos ser mais gentis do que precisamos. Adoro essa frase, essa ideia, porque ela me lembra que carregamos conosco, como seres humanos, não apenas a capacidade de ser gentil, mas a opção pela gentileza…”

Por fim, queria dizer que essa é uma história que deve ser lida e vista por crianças e adultos.

Título: Extraordinário  

Autor: R.J. Palácio  

Editora: Intrínseca

 Páginas: 320  

Sinopse Oficial:

“Extraordinário” é um livro que conquistou diversos públicos e foi adaptado para o cinema ainda em 2017! Aproveite para ler o livro e conhecer essa história inteligente, sensível e leve que traz mensagens sutis e humanas, deixando uma verdadeira lição de vida sobre respeito e amor ao próximo. “Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo” August Pullman (Extraordinário)

Não julgue um menino pela cara

Não existe nome mais adequado para este livro: “Extraordinário”. De leitura dinâmica, prazerosa e envolvente, “Extraordinário” conta a história de August Pullman, o Auggie, uma criança que nasceu com uma séria síndrome genética que o deixou com deformidades faciais, fazendo com que ele passasse por diversas cirurgias e complicações médicas ao longo dos seus poucos anos de vida. Auggie foi educado em casa até os 10 anos, quando começou a frequentar o quinto ano em uma escola de verdade. Ser o aluno novo não é fácil, mas com um rosto tão diferente pode ser ainda mais difícil! Auggie vai ter que convencer seus colegas do colégio particular de Nova York que, apesar de sua aparência diferente, ele é um menino igual a todos os outros.

Sobre a autora: Foi diretora de arte e designer gráfica de uma grande editora por mais de vinte anos, até estrear na literatura com Extraordinário. Mora em Nova York com o marido, os dois filhos e dois cachorros. Também é autora de 365 dias extraordinários, Auggie & eu, Diário extraordinário e Somos todos extraordinários.

Confira as nossas resenhas: A série Napolitana

As muitas nuances da série napolitana de Elena Ferrante

I Por Ligia Borges

I 15 de janeiro de 2018

 

Agora que terminei o último livro da tetralogia escrita por Elena Ferrante, posso dizer que tenho condições de fazer uma análise sobre essa série, mas antes de começar essa nossa conversa sobre os livros e sobre o mistério em volta da identidade da autora, divido com vocês a angustia que é escolher um só aspecto da série para explorar nessa discussão.

Digo isso porque existe uma pluralidade de temas tratados por Elena Ferrante nestes livros que daria para escrever uma nova tetralogia crítica, brincadeira. Tentarei ser objetiva e escolher apenas um dos pontos que muito me tocou nessa história que é a questão da metalinguagem e o processo de falar sobre a escrita de um romance dentro da própria história contada pela narradora que é uma das personagens principais, mas antes de ressaltar esse aspecto de construção da narrativa, vamos nos situar a respeito dos livros e da autora.

Elena Ferrante que assina a autoria dos livros é na verdade um pseudônimo, a verdadeira identidade da autora ainda é mantida em segredo até hoje.  Ferrante nunca apareceu em público e suas entrevistas são todas por email.

A série napolitana que é sucesso no mundo todo abarca quatro volumes, com cerca de 1.700 páginas, lançados aqui no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da Editoria Globo. São eles: A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e A História da Menina Perdida.

A história se passa na cidade italiana de Nápoles, no pós-guerra, e o ponto de partida é a infância e os laços de amizade entre duas meninas: Rafael Cerullo, Lila, e Elena Greco, Lenu. Ao retratar a vida das personagens, um recorte da infância à maturidade, a autora aproveita para nos dar um panorama social da Itália que tenta se reerguer e se reestrurar após o fim da II Guerra Mundial. Nesse contexto, há uma enorme reflexão sobre a condição feminina em meio a uma sociedade em que o machismo predomina e impõe seus obstáculos ao próprio progresso de uma nação.

Um aspecto da prosa de Ferrante, um pouco mais técnico, que eu gostaria de destacar, como afirmei no início, é a metalinguagem.  A narradora dessa história é a própria Elena Greco que conta a sua vida e a relação com sua melhor amiga, Lila, e fala também do seu processo de criação e escrita desse romance, no caso o próprio que estamos lendo. A série napolitana é também uma obra sobre a escrita, sobre escrever um livro que retrate o peso de uma amizade e sobre a história de um bairro que tenta se recuperar de uma guerra.

As duas amigas gostam muito de ler e escrever também.  Lila sempre teve o dom da escrita, é chamada por Elena de a amiga genial, mas é obrigada a interromper os estudos para se casar e, assim, permitir os negócios da família numa sapataria. Já Elena prossegue os seus estudos e se transforma uma intelectual e escritora aclamada. Mas é Lila quem é criativa, Elena precisa de Lila para escrever as suas histórias.

Como toda série, em determinados momentos, o leitor se sentirá um pouco cansado, até mesmo porque Ferrante conferiu tanta humanidade a seus personagens que em alguns pontos da trama começamos a acha-los tão teimosos e chatos em seus dilemas cotidianos que a gente se entedia. Pensando bem talvez essa seja uma grande qualidade da prosa de Ferrante, a humanização, e o fato de nos sentirmos fadigados com as aventuras de nossos personagens ocorra justamente por ela ter conseguido retratar com sucesso o ser humano e suas contradições.

Título: Série napolitana composta por quatro romances: A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e A História da Menina Perdida.

Autora: Elena Ferrante.

Editora: Biblioteca Azul.

Sinopse oficial: A Série Napolitana, formada por quatro romances, conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. O primeiro, A amiga genial, é narrado por Elena Greco e cobre  da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela.

As duas se unem, competem, brigam, fazem planos. Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella. As duas seguem caminhos diferentes.

Mais que um romance sobre a intensidade e complexa dinâmica da amizade feminina, Ferrante aborda as mudanças na Itália no pós-guerra e as transformações pelas quais as vidas das mulheres passaram durante a segunda metade do século XX. Sua prosa clara e fluída evoca o sentimento de descoberta que povoa a infância e cria uma tensão que captura o leitor.

Páginas: 1700

Sobre a autora: Elena Ferrante é pseudônimo de uma autora italiana, festejada pelo mundo afora como uma das mais belas prosas contemporâneas. Elena nunca mostrou o rosto, nem sequer deu alguma pista da sua verdadeira identidade. Nas raríssimas entrevistas que concede, todas por email, costuma dizer que já fez “ tudo que podia ter feito pelos seus livros escrevendo-os”.

Estamos lendo: História da Menina Perdida

História da Menina Perdida

IPor Ligia Borges

I 16 de novembro de 2017

Sinopse oficial:

Autora finaliza a série napolitana que já vendeu mais de 100.000 exemplares no Brasil. A história de vida de Lenu e Lina e de todos os personagens do bairro de Nápoles agora caminham da maturidade à velhice. “História da menina perdida” é o final que o leitor esperava, com a dureza e a força que aprendemos a identificar nas personagens de Ferrante — sem rodeios.

Ficha técnica:

Peso: 0.480 Kg
Marca: Biblioteca Azul
I.S.B.N: 9788525063106
Altura: 21.00 cm
Largura: 14.00 cm
Profundidade: 2.70 cm
Número de páginas: 480
Idioma: Português
Acabamento: Brochura
Cód. Barras: 9788525063106
Número da edição: 1
Ano de edição: 2017

Confira nossas resenhas: Na minha pele

Na Minha Pele: um romance biográfico, será que é possível?

I Por Ligia Borges

I 13 de novembro de 2017

Em Na Minha Pele – livro escrito por Lázaro Ramos, conhecido pelos seus inúmeros personagens, vou citar os meus favoritos: Roque Bahia de Ó paí, Ó; Foguinho de Cobras & Lagartos; Brau de Mister Brau, mas tem vários outros papéis das produções cinematográficas e telenovelas estreladas por ele –, bem o ator já é conhecido, mas como eu estava dizendo, em Na Minha Pele temos a oportunidade de olhar um pouco mais para o cidadão Lázaro que se revela através do escritor.  Estamos diante de uma conversa franca, um convite à reflexão e à tomada de consciência sobre temas como construção de identidade, autoestima, racismo, família, valores e cidadania.

Porém me arrisco a dizer mais, o livro vai além de um relato biográfico puro e simples, é quase um romance. Ramos ao narrar a história da sua família, por meio das memórias e lembranças da sua infância, dá voz a personagens reais e recria a Ilha de Paty, a pouco mais de setenta quilômetros de Salvador, localizada na baía de todos os Santos.

É uma delícia vivenciar as histórias contadas por ele, algumas muitas vezes duras, tristes, mas humanas, de luta, como é a vida real cheia de altos e baixos, mas muitas delas divertidas também. Algumas dessas histórias tem um encanto ainda maior quando seu RG tem a sigla BA de Bahia, como é o caso da pessoa que vos fala. Inúmeras foram os momentos em que folheando as páginas dessa viagem revivi cenas da minha infância.

“ Quando alguém está no “porto” e quer chegar até o Paty, só precisa gritar: “ Tomaquê”.” E Lázaro explica ao leitor o significado de expressões tão comuns na Bahia. É uma redução como Oxente que quer dizer “O que é isso, minha gente”,  ou  Ó paí, ó, que é “Olhe para isso, olhe. E o Tomaquê  é o mesmo que “ Me tome aqui, do outro lado da margem”. Porém como ele mesmo diz é muito mais gostoso falar Tomaquê e, assim, ele vai recriando cenários, recuperando contextos, tecendo uma história que é uma história real que ainda está sendo escrita por ele.

Mas voltemos ao ponto de onde eu havia parado antes de me perder nas expressões regionais. Voltando ao livro, este é também um relato delicado e leve, mas ao mesmo tempo forte e incisivo sobre um tema tão pesado que é o racismo, uma violência, um crime cruel que acontece o tempo todo e se disfarça de pequenos gestos e de olhares segregadores, que subjuga, oprime, nos leva a dar milhares de passos na macha ré da evolução e do progresso, em todos os sentidos: humano, moral, intelectual, espiritual, econômico, político etc.

A camélia era usada como um símbolo que identificava quem era contra a escravidão. Imagem: freepik.com

Nas páginas de em Na Minha Pele, vamos nos deparar também com fatos importantes e marcantes da história de luta do negro nesse mundão de meu Deus, que nos emociona e nos toca. Vocês sabiam que a camélia (foto), a flor, era usada como um símbolo que identificava quem era contra a escravidão? Usar a flor na lapela do paletó ou ter camélias nos jardins era um sinal utilizado pelos escravos para identificar quem podia lhes dar apoio na luta contra a escravidão. Esses e outros relatos do livro enriquecem a nossa memória coletiva e nos aproxima ainda mais das nossas origens, nos humaniza.

Sobre o autor – Tive a oportunidade de conhecer Lázaro Ramos e assistir a algumas das suas palestras na edição desse ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que homenageou Lima Barreto e deu espaço para diversos bons escritores negros ( Conceição Evaristo, Djaimilia Pereira, só para citar alguns), mas a Flip merece um post à parte. Voltando a Lázaro tive o prazer de conhecê-lo e conversar um pouquinho com ele, e posso dizer que a gente admira o ator, começa a gostar do escritor, mas se encanta mesmo é pelo cidadão que aproveita o espaço e visibilidade conquistados por sua arte para colocar no debate a discussao sobre  todas essas questões. ” ‘Seu lugar é aquele onde você sonha estar’. Hoje assumo: precisava propagar essa ideia, a ideia de que sonho é a meta. Há que se desejar mais e que pensar que é possível.”

 

Ficha técnica do livro

Título: Na Minha Pele

Autor: Lázaro Ramos

Editora: Objetiva

Ano: 2017

Edição: 1ª edição

Total de Páginas: 152pgs