Confira as nossas resenhas: Capitães da Areia

Quem são os Capitães da Areia?

 I Por Ligia Borges

I 8 de outubro de 2018

 

" e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche."
” e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche.”

Em Capitães da Areia, Jorge Amado lança mão da sua habilidade literária para trazer luz a um tema social que há muito perpassa a nossa sociedade e o faz por meio do relato de uma situação que, a meu ver, já se tornou atemporal. O autor nos convida a mergulhar nos subúrbios de Salvador para acompanhar a vida e o cotidiano dos meninos de rua: os temidos Capitães da Areia. Quem são? Onde vivem? O que fazem? Por que agem assim?

Um bando de crianças abandonadas entre 8 e 16 anos que vivem nas ruas de Salvador e são temidas e, ao mesmo tempo, ignoradas por uma sociedade que se sente vítimas delas.

Os garotos abandonados à própria sorte se refugiam num trapiche, lugar que utilizam para se abrigar, e preenchem sua vida – vazia de escola, moradia, comida, amor, respeito e carinho – com pequenos furtos, brigas  e diversos outros tipos de vandalismos que realizam pelas ruas de Salvador. Até aí, não vemos novidade alguma no relato dessa situação que qualquer reportagem de jornal daria conta de descrever. Continue reading “Confira as nossas resenhas: Capitães da Areia”

Confira as nossas resenhas: As intermitências da morte

O dia em que a morte decretou greve

I Por Ligia Borges

I 20 de agosto de 2018

 

 

A morte resolveu suspender as suas atividades. “ No dia seguinte ninguém morreu”. Assim Saramago começa a nos contar essa maravilhosa história que nos revela tanto sobre a genialidade do autor.  Com a sua imensa capacidade inventiva, ele dá voz e humanização a uma das figuras mais temidas da humanidade, a morte, e nos leva a refletir sobre o seu papel para o equilíbrio da vida e das instituições.

Sem nenhuma razão aparente, as pessoas simplesmente pararam de morrer num determinado país e, com o passar dos dias, uma série de instituições que dependiam da morte para existir começam a entrar em colapso. A igreja que vê o seu papel e até a sua própria condição de existência serem colocados em cheque porque sem a morte não há ressurreição, os hospitais, as casas funerárias e as seguradoras de vida são as primeiras instituições a se desesperarem diante do “ problema” e a pressionarem o Estado por uma solução. Este por sua vez se vê diante de uma crise sem saber ao certo quais medidas tomar para evitar um colapso social diante de situação tão inusitada.  O sistema previdenciário de pensões e aposentadorias, por exemplo, como ficaria diante da greve da morte? Continue reading “Confira as nossas resenhas: As intermitências da morte”

Causos Literários da Srta Borges: Se for de paz, pode entrar

Se for de paz, pode entrar

I Por Ligia Borges

I 2 de agosto de 2018

Já faz algum tempo que um leitor aqui do estoriando me fez um pedido. Ao ler o texto  O Jardim e a Literatura de Jorge Amado e Zélia Gattai  sobre a minha visita a Casa de do Rio Vermelho , em Salvador, ele me disse que gostaria de ler um outro texto menos informativo, menos jornalístico e mais subjetivo em que eu descrevesse as minhas emoções e sentimentos ao visitar aquele espaço. Esses dias, eu atendi o pedido dele e compartilho esse texto aqui com vocês, meus queridos leitores.

 

Brasília, 10 de julho de 2018

Evandro,

Já se passaram quatro meses desde que estive na Casa do Rio Vermelho, a residência onde viveu por mais de 40 anos o casal de escritores baianos Jorge Amado e Zélia Gattai. O tempo transcorrido desde que visitei o refúgio dos escritores fez com que eu tivesse uma outra visão da casa, dos objetos e até mesmo da  própria sensação experimentada durante aquela manhã em que me hipnotizei enquanto observava os detalhes e referências que marcaram a vida e a obra do casal dos escritores. O distanciamento dos fatos, às vezes, faz com que a nossa memória imprima uma espécie de idealização ou romantize algumas experiências que, neste caso, acredito se tratar de algo positivo, afinal de contas estamos falando de uma vivencia subjetiva e literária.

Se você tivesse me pedido para relatar essas experiências nos primeiros dias da minha visita, eu me prenderia a informações que apurei a respeito da vida do casal de escritores, das influências deles, da obra literária, como o fiz no outro texto, muito mais objetivo e informativo, pois a minha preocupação, certamente, era registrar os dados que colhi naquela visita e mostrar para as pessoas a existência desse espaço e o que ele oferecia em termos de insumo cultural para aqueles que estivessem de passagem por Salvador e quisessem conhecer um pouco mais da vida e obra dos escritores.

Passado esse tempo e superada essa necessidade informativa já que o outro texto cumpriu este papel que eu mesma me impus, quero compartilhar contigo aqui o que realmente senti visitando aquele espaço, me desprendendo um pouco da “obrigação” jornalística de te informar sobre a obra dos escritores, já que você se interessou mais pela minha experiência e emoções sentidas naquele espaço. Continue reading “Causos Literários da Srta Borges: Se for de paz, pode entrar”

Confira as nossas resenhas: A insustentável leveza do ser

A insustentável leveza do ser

 I Por Ligia Borges

I 1º de junho de 2018

 

A leitura de A Insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, me fez refletir sobre como a experiência literária conversa com o nosso momento de vida e com a nossa bagagem de referências. Digo isso porque este livro me foi recomendando por uma amiga que tem muito bom gosto literário e todas as pessoas com quem conversei sobre ele, de certa forma, gostam bastante dessa história contada por Kundera. Não acho que o livro seja ruim, mas apenas o li no momento em que não estava tão predisposta a esta leitura, de modo que enrolei, divaguei, me perdi, enfim, o resultado foi que, para usar expressões da boa coloquialidade de nossa prosa falada por ai “não bateu”, não “demos liga”.

Para facilitar a nossa compreensão sobre esta história, resolvi dividir a minha análise em três eixos e com a finalidade de otimizar o nosso tempo, falarei rapidamente sobre cada um deles, mas me atentarei ao que mais me chamou a atenção dentro do meu processo de leitura.

Trata-se um romance filosófico que ao meu ver tem três linhas de sustentação: as relações amorosas entre quatro personagens (Tomas e Tereza, Sabrina e Franz) e essas aqui não me surpreenderam tanto, já as vi em vários outros romances que tratam de histórias de amor, na vida, essa parte me deixou um pouco entediada em alguns momentos, confesso, são relações complicadas, difíceis, permeadas de traições e paixões; o contexto histórico, pois essa história se passa em Praga, capital da República Tcheca no pós segunda guerra mundial quando a Rússia emerge como grande potência liderando o bloco socialista da União Soviética, essa parte é interessante porque mostra a situação de uma cidade em meio a uma realidade do pós- guerra, mas ainda sob atmosfera de uma nova guerra (a fria) ; e por último o eixo filosófico-existencial que foi o que mais me chamou atenção nesta leitura. Continue reading “Confira as nossas resenhas: A insustentável leveza do ser”

Confira as nossas resenhas: O Conto da Ilha Desconhecida

Em busca da ilha desconhecida …

I Por Ligia Borges

I 9 de maio de 2018

 

” É necessário sair da ilha para ver a ilha … não nos vemos se não saímos de nós…”.   O conto da ilha desconhecida, de José Saramago, foi um presentinho que ganhei da mãe de um dos meus melhores amigos. E ela me disse: ” Achei o livro a sua cara, Liginha, espero que goste”.  Curioso que essa frase dela ficou na minha cabeça de modo que direcionou o meu olhar para a leitura. Confesso que enquanto percorria as páginas dessa história buscava um sentido, tentando entender por que ela havia associado o livro a mim.

Trata-se de um livro pequeno com uma edição bem bonita, cheia de aquarelas, da Companhia das Letras, daqueles que a gente senta e lê de uma tacada só. E entende num passo de mágica também? Não, não entende.

Apesar de ser um conto, texto com uma estrutura curta, estamos diante daquele tipo de leitura que te engana pelo tamanho. Digo isso porque a história te toma e faz com que você mergulhe num mar de reflexões tentando apreender o sentido de tudo aquilo que foi dito. Estamos falando de Saramago, meu povo, não é tão simples assim. Existe uma pluralidade de sentidos escondidos nas entrelinhas. Existem nuances que só ganham formas a partir da experiência pessoal e da maturidade de cada um. E acredito que algumas delas só tomam corpo mesmo com um pouco mais de tempo após a leitura. Continue reading “Confira as nossas resenhas: O Conto da Ilha Desconhecida”

Confira as nossas resenhas: Surpreendente!

Surpreendente paralelo entre a literatura, o cinema e a vida

I Por Ligia Borges

I 26 de março de 2018

Tem uma frase que faz parte do enredo do filme “ O fabuloso destino de Amelie Poulain” que diz mais ou menos o seguinte:  “ são tempos difíceis para os sonhadores”. Estabelecendo aqui um paralelo entre o cinema e a literatura, me arrisco a dizer que não existiria frase melhor para descrever Pedro, personagem principal da trama de Surpreendente!, do escritor Maurício Gomyde.

Pedro é um cara sonhador, daqueles que acreditam que com o seu jeito doce é capaz de sacudir o mundo. Estudante recém formado em Cinema aos 25 anos, o jovem cineasta sonha em utilizar a sétima arte como instrumento para tocar o coração das pessoas e melhorar a realidade a sua volta.

O rapaz é um otimista nato e vai tentando contagiar todos a sua volta com a sua paixão pelo cinema. Ele sonha em produzir o próprio filme, trabalha numa locadora de vídeos na periferia de São Paulo e promove num cineclube uma sessão de filmes que está quase sempre vazia, mas o desejo de emplacar os seus projetos o movem.  “ Preciso que ela (a dona Rebeca, que é a dona do espaço) continue acreditando na minha teoria de que o cinema, a música boa e a literatura são instrumentos da Santíssima Trindade para salvar o ser humano da derrota como espécie”. (pg.13)

Acontece que como cada um de nós, Pedro traz na bagagem as suas lutas e dilemas internos que vem tentando superar, um deles é a batalha contra uma cegueira degenerativa que contraria os prognósticos da medicina quando se estagna de forma inexplicável.

A questão toda é que a vida não obedece a scripts, o destino não aceita ser roteirizado porque este possui a sua forma própria de escrever os fatos e não abre mão dessa condição para dar voz e passagem a nossos desejos e anseios.  A maior parte dos acontecimentos não está sob nosso controle e é essa reflexão que faz com que essa história seja tão surpreendente. O destino de Pedro vai nos mostrar isso.

E como num roteiro em que a arte imita a vida, as coisas começam a sair do prumo e é, justamente, nesse ponto da história em que devo confessar que comecei a achar o nosso herói  um tanto quanto entediante para não falar outra palavra.

 A narrativa fica mais lenta, amarrada, parece que não deslancha e o leitor é obrigado a se deparar com a teimosia de um personagem que começa a se perder em seu próprio caos e encontra na sua turma de amigos a companhia para mergulhar em uma aventura rumo ao interior do Goiás, numa a viagem a Pirenópolis na qual Pedro tenta encontrar respostas para as suas angústias pessoais e seus amigos acreditam estar diante de um novo roteiro que vai revolucionar a historia do cinema, uma turma de inconsequentes em que começam a fazer um  tanto de bobagens em série. O autor até tenta romantizar um pouco essa busca do personagem e as aventuras da sua turma, mas devo confessar que achei essa parte da narrativa bem cansativa.

Mas a favor da trama, devo dizer que a história é cheia de pequenos detalhes que se conectam e imprimem à narrativa um ritmo de suspense, como se estivéssemos mesmo em um roteiro de cinema.

Enquanto pensava a respeito dessa trama e sobre a construção desses personagens, volto a traçar um paralelo entre a sétima (o cinema) e a sexta (a literatura) arte, em que me vem à mente uma frase atribuída a Chico Xavier que diz o seguinte, “a vida nem sempre segue a nossa vontade, mas ela é perfeita naquilo que tem que ser”.

E assim fiquemos com as lições que os personagens nos ensinam, eles sempre nos ensinam.

  “ A vida é complexa demais para ser esperada assim, como uma iluminação divina que vai bater à porta e entregar de bandeja todas as respostas. Pois, para seu governo, afirmo com todas as letras que essa encomenda nunca será entregue embalada para presente. Você precisa ir até ela.” (pg. 134). Essa frase é de Fit, o melhor amigo de Pedro.

 “ Aqui começa o maior filme de todos os tempos sobre as chances que o mundo coloca na vida das pessoas. Que as lições sejam aprendidas e voltemos milhões de vezes melhores do que quando partimos. Apenas os fortes sobrevivem, porque, mesmo a estrada sendo longa, já dizia o poeta: “Quem tem um porquê, enfrenta qualquer como.” ( pg. 146). Essa frase é de Cristal, a garota que na história lhe desperta um novo olhar para a vida.

Título: Surpreendente!

Autor: Maurício Gomyde

Editora: Intrínseca

Páginas: 272

Sinopse Oficial:

Aos 25 anos, recém-formado, Pedro está convencido de que é um sujeito muito especial, que tem a missão de usar o cinema como instrumento para melhorar o mundo. Diagnosticado na adolescência com uma doença degenerativa que o condenaria à cegueira, ele contraria a lógica da medicina quando a perda de sua visão estaciona de forma inexplicável. Enquanto comanda o último cineclube de São Paulo e trabalha em uma videolocadora da periferia, Pedro planeja seu próximo filme, a obra que vai consagrá-lo. E, para animar as coisas, conhece a intrigante Cristal, uma ruivinha decidida, garçonete e estudante de física nuclear, que mexe com seu coração.

A perspectiva idealista de Pedro, porém, sofre sérios abalos. Atormentado por um segredo, ele parte com os amigos Fit, Mayla e Cristal numa longa viagem até Pirenópolis, em Goiás, a bordo de um Opala envenenado. Com câmeras nas mãos e espírito de aventura, a equipe técnica improvisada está disposta a usar toda a sua criatividade na filmagem feita na estrada ao sabor de encontros inesperados e de sentimentos imprevisíveis. E o jovem cineasta descobre que, quando o destino foge do script, nada supera o apoio de grandes amigos.

Sobre o autor:

Maurício Gomyde nasceu em São Paulo e desde os três anos de idade vive em Brasília – “disparado a cidade mais bonita do mundo”. Surpreendente!  é seu sexto romance. Além de escritor, ele também é compositor e baterista.

Confira as nossas resenhas: Olhos D’Água

O que há por trás desses Olhos d ’Água ?

I Por Ligia Borges

I  11 de dezembro de 2017

Olhos D’água, de Conceição Evaristo, é um livro curto no tamanho e grandioso em sua forma de ser. A obra reúne 15 pequenos contos e a gente já pensa que rapidinho se lê. Ledo engano. É impossível prosseguir a leitura de cada um desses contos, de forma instantânea e rápida, sem passar dias e dias refletindo sobre os temas ali tratados.

Dentro de cada conto habita uma história, um personagem que poderia ser o mesmo de todos os outros contos, um cotidiano que se repete em cada vida, uma sina que se cumpre em um destino, cronologicamente, determinado e condenado aos mesmos desfechos. Será fatalidade? Certamente não é. Não pode ser fruto do acaso esse conglomerado de vidas condenadas aos mesmos fins sociais. Tem alguma coisa muito errada nesse sistema.

Conceição Evaristo, com sua escrita leve, diria quase poética, dá voz e sentimentos a personagens anônimos que estão no noticiário nosso de cada dia. Mas a crônica jornalística na maioria das vezes se atém apenas aos fatos: “Tiroteio assusta moradores na favela” ou “Policiais e criminosos trocam tiros após invasão na favela” são algumas manchetes reais que a gente encontra nas notícias por aí.

No conto ‘ Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos’, Conceição nos fala sobre as brincadeiras de duas irmãzinhas gêmeas, moradoras da favela: ”Nos últimos tempos na favela, os tiroteios aconteciam com frequência e a qualquer hora… Zaíta seguia distraída em sua preocupação. Mais um tiroteio começava (…)”.  Zaíta procurava a sua irmã e a figurinha mais bonita do seu álbum, que retratava uma garotinha carregando uma braçada de flores. E aqui interrompo minha escrita sobre esse conto porque acredito que essa leitura deveria ser obrigatória para cada um de nós e quero dar a  vocês a oportunidade de conhecerem esse conto todo, sem que eu estrague a descoberta dessa leitura revelando o desfecho.

A leitura de Olhos d’Água nos possibilita andar pelas ruas de forma mais atenta, direcionando um outro olhar para o mundo e, principalmente, para os nossos semelhantes. Um olhar mais brando, de mais empatia, de mais tolerância, de mais compaixão, de mais amor. No conto ’Di lixão’, Evaristo conta a história de um morador de rua e a gente finaliza o conto e lembra que aquela pessoa deitada na calçada é um ser humano e tem uma história de vida. Pensemos sempre nisso na próxima vez em que olharmos alguém que perambula pelas ruas.

O livro, que conquistou o terceiro lugar na categoria Contos e Crônicas do Prêmio Jabuti de 2015, trata de uma série de questões sociais e existenciais. Pobreza, preconceito, autoestima, racismo, violência, educação e sexo são só algumas delas. Numa pluralidade de personagens composto por mães, maridos, amantes, namorados, vizinhos, patrões, filhos e crianças, há um destaque: as mulheres, sempre fortes, numa luta diária para serem respeitas, amadas, reconhecidas, valorizadas. Mulheres que carregam consigo a força da ancestralidade de suas raízes africanas.

Olhos D’Água é também um belíssimo conto que dá título ao livro. “Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe?”. Para saber o final dessa história, tem que ler o livro, tem que ler, tem que…

Título: Olhos D’Água.

Autor: Conceição Evaristo.

Editora: Pallas.

Sinopse oficial: Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida? Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida de ferro, equilibrando-se na “frágil vara” que, lemos no conto “O Cooper de Cida”, é a “corda bamba do tempo”. Em Olhos d’água estão presentes mães, muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira.

Páginas: 116

Sobre a autora*: Conceição Evaristo nasceu em 29 de dezembro de 1946 numa favela da zona sul de Belo Horizonte, Minas Gerais. Filha de uma lavadeira que, assim como Carolina Maria de Jesus, matinha um diário onde anotava as dificuldades de um cotidiano sofrido, Conceição cresceu rodeada por palavras. Teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica, até concluir o curso Normal, em 1971, já aos 25 anos.

Uma das principais expoentes da literatura brasileira e afro-brasileira atualmente, Conceição Evaristo tornou-se também uma escritora negra de projeção internacional, com livros traduzidos em outros idiomas. Publicou seu primeiro poema em 1990, no décimo terceiro volume dos Cadernos Negros, editado pelo grupo Quilombhoje, de São Paulo. Desde então, publicou diversos poemas e contos nos Cadernos, além de uma coletânea de poemas e dois romances.

A poeta traz em sua literatura profundas reflexões acerca das questões de raça e de gênero, com o objetivo claro de revelar a desigualdade velada em nossa sociedade, de recuperar uma memória sofrida da população afro-brasileira em toda sua riqueza e sua potencialidade de ação. É uma mulher que tem cuidado de abrir espaços para outras mulheres negras se apresentarem no mundo da literatura.

*Com informações consultadas em: http://www.palmares.gov.br/conceicao-evaristo

 

 

 

 

Confira as nossas resenhas: O evangelho segundo Jesus Cristo

O dia, ou melhor, o livro em que fiz as pazes com Saramago

I Por Ligia Borges

I 6 de novembro de 2017

O Evangelho segundo Jesus Cristo foi publicado em 1991. Dizem que na época Saramago passou a ser malvisto pela Igreja após publicar esta obra que humanizou a figura de Jesus Cristo.

Assim como muita gente, comecei a ler a obra do escritor português José Saramago por um dos seu livros mais famosos e premiado, o Ensaio sobre a Cegueira. Essa obra rendeu ao autor um dos prêmios mais importantes da literatura portuguesa que é o Prêmio Camões, em 1995, e foi adaptada para o cinema pelo brasileiro Fernando Meirelles em 1997. Acontece que na época em que o li, devia ter uns 14 anos, acho que não tinha maturidade o suficiente para compreender a dimensão da obra e a grandeza de estilo do autor com a sua ausência de parágrafos e pontuação definida para introduzir a fala dos personagens. E foi assim que o estrago estava feito, terminei o livro porque sou persistente, mas detestei Saramago e, digo mais, passei anos afirmando para mim mesma e para as outras pessoas a dificuldade que é ler a obra do escritor.

E aqui faço um parêntese muito rápido, acredito que alguns livros ou alguns autores requerem uma certa maturidade ou uma contextualização para serem lidos e melhor compreendidos.  Dia desses conversava com uma amiga e ela me dizia que até hoje agradece muito a uma professora que a iniciou na obra de Clarice Lispector por meio de A hora da Estrela, livro mais acessível e simples do ponto de vista da linguagem, e que se o tivesse feito por meio de outros títulos como A Paixão segundo GH, por exemplo, que é considerado um dos livros mais densos do realismo psicológico, porque revela uma imersão mais profunda na introspecção com um mergulho na psique dos personagens, teria detestado Clarice.

Essa mesma amiga, que é uma das maiores admiradoras da obra de Saramago que conheço, me emprestou O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Graças a insistência dela, baixei a guarda e resolvi dar uma segunda chance a Saramago. E, acreditem, me surpreendi, pois o livro é muito bom. O autor simplesmente reconta uma das histórias mais conhecidas da humanidade, que nos vem sendo contada há tantos séculos: a vida de Jesus Cristo, só que a partir da visão do próprio Cristo. Saindo da ótica do divino para fazer um retrato da passagem de Cristo pela terra sob a perspectiva do homem, a partir da frágil, mas tenaz natureza humana … o resultado? Um Jesus Cristo de carne e osso como nunca ousamos enxergar. E o autor recria essa história por meio de uma narrativa criativa e encantadora que prende a atenção do leitor do início ao fim, mesmo seguindo fiel ao estilo Saramago de ser: sem pontuação marcada ou parágrafos definidos.

E o resultado disso tudo é que terminei a leitura com vontade de ler outros títulos do autor, farei isso, conto para vocês essa experiência nos próximos posts.

” A ocasião pode sempre criar uma necessidade, mas se a necessidade é forte, terá de ser ela a fazer a ocasião”

                                                           Maria. ( O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

Uma curiosidade:  Saramago que era ateu publicou O Evangelho segundo Jesus Cristo em 1991. Dizem as línguas literárias, e aqui não me atrevo a dizer se boas ou más, que na época ele passou a ser malvisto pela Igreja após publicar esta obra que humanizou a figura de Jesus Cristo. A polêmica foi tão forte que o escritor decidiu se isolar com Pilar, sua esposa, na ilha de Lanzarote, a mais oriental do arquipélago das Canárias, na Espanha.

Sobre o autor: Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922, em uma família humilde de agricultores que morava na Aldeia da Azinhaga, localizada próxima da província do Ribatejo, em Portugal.

Um dos maiores escritores da literatura portuguesa, José Saramago entrou para história ao se tornar o primeiro autor de língua portuguesa a ganhar um Nobel da Literatura em 8 de outubro de 1998.

Escreveu diversos livros, além de O Evangelho segundo Jesus Cristo publicou também : O ano da morte de Ricardo Reis; O ano de 1993; A bagagem do viajante; O caderno; Cadernos de Lanzarote; Cadernos de Lanzarote II; Caim; A caverna; O conto da ilha desconhecida; Claraboia; Don Giovanni ou dissoluto absolvido; Ensaio sobre a cegueira; Ensaio sobre lucidez; História do cerco de Lisboa; O homem duplicado; In Nomie Dei; A intermitências da morte; A jangada de pedra; A maior flor do mundo: Manual de pintura e caligrafia; Objecto quase; As pequenas memórias; Que farei com este livro?; Todos os nomes: Viagem a Portugal; A viagem do elefante; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas.

Ficha técnica do livro

Título: O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2010

Edição: 1ª edição (1991), 43 reimpressões

Total de Páginas: 445pgs