Notícias: Poesia de cordel é declarada Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro

Poesia de cordel é declarada Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro

I Por Ligia Borges

I 20 de setembro de 2018

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J. Borges ganhou exposição comemorativa pelos seus 80 anos, promovida pela Caixa Cultural. Essa foto foi tirada em Brasília, mas a exposição tem rodado o país. Foto: Arquivo Pessoal.

Um dos estilos literários mais próximos da cultura popular, a poesia da literatura de cordel foi reconhecida nesta quarta-feira (19) como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. O título foi concedido por unanimidade pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A literatura de cordel teve início no Norte e no Nordeste, espalhando-se por todo o Brasil. O estilo retrata muito o imaginário coletivo, a cultura popular, a memória social e o ponto de vista dos poetas a respeito de acontecimentos vividos ou imaginados.

José Francisco Borges, mais conhecido como J. Borges, é um dos nomes mais conhecidos quando se fala de cordel. No início do ano, tive a oportunidade de visitar uma exposição, em Brasília, em que apresentava uma parte das suas obras e um pouco da sua vida. Uma lindeza! Continue reading “Notícias: Poesia de cordel é declarada Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro”

Confira as nossas resenhas: Não leve a vida tão a sério

Como não levar a vida tão a sério?

 I Por Ligia Borges

I 10 de julho de 2018

 

O texto a seguir não se propõe a ser uma resenha propriamente dita, na verdade, se trata muito mais da minha experiência pessoal e de leitura de Não leve a vida tão a sério, de Hugh Prather.  Bem, não costumo ser muito adepta de livros que se propõem a traçar um manual de regras com passo a passo para você implementar ações de modo a melhorar a sua vida ou que tragam a receita de bolo para garantir a realização dos seus sonhos. Até já li alguns títulos por aí, mas ao contrário do que acontece com as obras literárias, que nunca abandono pela metade, o gênero autoajuda é o tipo que quando me enfadonha deixo logo pelo meio do caminho.

Segundo as pesquisas, esse tipo de leitura encontra-se entre as que mais têm aquecido o mercado editorial nos últimos tempos. As pessoas vêm cada vez mais se interessando pelos títulos que se propõem a fazer um trabalho de “ coaching”, ou seja, a ditarem a fórmula para que trilhem e obtenham sucesso nas mais diversas áreas: profissional, financeira, amorosa, espiritual e prometem a fórmula de sucesso para alavancar a mudança pessoal. As prateleiras das livrarias estão repletas desses títulos que prometem revolucionar a nossa forma de se colocar no mundo e oferecem a solução mágica para todos os nossos problemas. Mas será mesmo? Continue reading “Confira as nossas resenhas: Não leve a vida tão a sério”

Confira as nossas resenhas: A insustentável leveza do ser

A insustentável leveza do ser

 I Por Ligia Borges

I 1º de junho de 2018

 

A leitura de A Insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, me fez refletir sobre como a experiência literária conversa com o nosso momento de vida e com a nossa bagagem de referências. Digo isso porque este livro me foi recomendando por uma amiga que tem muito bom gosto literário e todas as pessoas com quem conversei sobre ele, de certa forma, gostam bastante dessa história contada por Kundera. Não acho que o livro seja ruim, mas apenas o li no momento em que não estava tão predisposta a esta leitura, de modo que enrolei, divaguei, me perdi, enfim, o resultado foi que, para usar expressões da boa coloquialidade de nossa prosa falada por ai “não bateu”, não “demos liga”.

Para facilitar a nossa compreensão sobre esta história, resolvi dividir a minha análise em três eixos e com a finalidade de otimizar o nosso tempo, falarei rapidamente sobre cada um deles, mas me atentarei ao que mais me chamou a atenção dentro do meu processo de leitura.

Trata-se um romance filosófico que ao meu ver tem três linhas de sustentação: as relações amorosas entre quatro personagens (Tomas e Tereza, Sabrina e Franz) e essas aqui não me surpreenderam tanto, já as vi em vários outros romances que tratam de histórias de amor, na vida, essa parte me deixou um pouco entediada em alguns momentos, confesso, são relações complicadas, difíceis, permeadas de traições e paixões; o contexto histórico, pois essa história se passa em Praga, capital da República Tcheca no pós segunda guerra mundial quando a Rússia emerge como grande potência liderando o bloco socialista da União Soviética, essa parte é interessante porque mostra a situação de uma cidade em meio a uma realidade do pós- guerra, mas ainda sob atmosfera de uma nova guerra (a fria) ; e por último o eixo filosófico-existencial que foi o que mais me chamou atenção nesta leitura. Continue reading “Confira as nossas resenhas: A insustentável leveza do ser”

Confira as nossas resenhas: O Conto da Ilha Desconhecida

Em busca da ilha desconhecida …

I Por Ligia Borges

I 9 de maio de 2018

 

” É necessário sair da ilha para ver a ilha … não nos vemos se não saímos de nós…”.   O conto da ilha desconhecida, de José Saramago, foi um presentinho que ganhei da mãe de um dos meus melhores amigos. E ela me disse: ” Achei o livro a sua cara, Liginha, espero que goste”.  Curioso que essa frase dela ficou na minha cabeça de modo que direcionou o meu olhar para a leitura. Confesso que enquanto percorria as páginas dessa história buscava um sentido, tentando entender por que ela havia associado o livro a mim.

Trata-se de um livro pequeno com uma edição bem bonita, cheia de aquarelas, da Companhia das Letras, daqueles que a gente senta e lê de uma tacada só. E entende num passo de mágica também? Não, não entende.

Apesar de ser um conto, texto com uma estrutura curta, estamos diante daquele tipo de leitura que te engana pelo tamanho. Digo isso porque a história te toma e faz com que você mergulhe num mar de reflexões tentando apreender o sentido de tudo aquilo que foi dito. Estamos falando de Saramago, meu povo, não é tão simples assim. Existe uma pluralidade de sentidos escondidos nas entrelinhas. Existem nuances que só ganham formas a partir da experiência pessoal e da maturidade de cada um. E acredito que algumas delas só tomam corpo mesmo com um pouco mais de tempo após a leitura. Continue reading “Confira as nossas resenhas: O Conto da Ilha Desconhecida”

Confira as nossas resenhas: Surpreendente!

Surpreendente paralelo entre a literatura, o cinema e a vida

I Por Ligia Borges

I 26 de março de 2018

Tem uma frase que faz parte do enredo do filme “ O fabuloso destino de Amelie Poulain” que diz mais ou menos o seguinte:  “ são tempos difíceis para os sonhadores”. Estabelecendo aqui um paralelo entre o cinema e a literatura, me arrisco a dizer que não existiria frase melhor para descrever Pedro, personagem principal da trama de Surpreendente!, do escritor Maurício Gomyde.

Pedro é um cara sonhador, daqueles que acreditam que com o seu jeito doce é capaz de sacudir o mundo. Estudante recém formado em Cinema aos 25 anos, o jovem cineasta sonha em utilizar a sétima arte como instrumento para tocar o coração das pessoas e melhorar a realidade a sua volta.

O rapaz é um otimista nato e vai tentando contagiar todos a sua volta com a sua paixão pelo cinema. Ele sonha em produzir o próprio filme, trabalha numa locadora de vídeos na periferia de São Paulo e promove num cineclube uma sessão de filmes que está quase sempre vazia, mas o desejo de emplacar os seus projetos o movem.  “ Preciso que ela (a dona Rebeca, que é a dona do espaço) continue acreditando na minha teoria de que o cinema, a música boa e a literatura são instrumentos da Santíssima Trindade para salvar o ser humano da derrota como espécie”. (pg.13)

Acontece que como cada um de nós, Pedro traz na bagagem as suas lutas e dilemas internos que vem tentando superar, um deles é a batalha contra uma cegueira degenerativa que contraria os prognósticos da medicina quando se estagna de forma inexplicável.

A questão toda é que a vida não obedece a scripts, o destino não aceita ser roteirizado porque este possui a sua forma própria de escrever os fatos e não abre mão dessa condição para dar voz e passagem a nossos desejos e anseios.  A maior parte dos acontecimentos não está sob nosso controle e é essa reflexão que faz com que essa história seja tão surpreendente. O destino de Pedro vai nos mostrar isso.

E como num roteiro em que a arte imita a vida, as coisas começam a sair do prumo e é, justamente, nesse ponto da história em que devo confessar que comecei a achar o nosso herói  um tanto quanto entediante para não falar outra palavra.

 A narrativa fica mais lenta, amarrada, parece que não deslancha e o leitor é obrigado a se deparar com a teimosia de um personagem que começa a se perder em seu próprio caos e encontra na sua turma de amigos a companhia para mergulhar em uma aventura rumo ao interior do Goiás, numa a viagem a Pirenópolis na qual Pedro tenta encontrar respostas para as suas angústias pessoais e seus amigos acreditam estar diante de um novo roteiro que vai revolucionar a historia do cinema, uma turma de inconsequentes em que começam a fazer um  tanto de bobagens em série. O autor até tenta romantizar um pouco essa busca do personagem e as aventuras da sua turma, mas devo confessar que achei essa parte da narrativa bem cansativa.

Mas a favor da trama, devo dizer que a história é cheia de pequenos detalhes que se conectam e imprimem à narrativa um ritmo de suspense, como se estivéssemos mesmo em um roteiro de cinema.

Enquanto pensava a respeito dessa trama e sobre a construção desses personagens, volto a traçar um paralelo entre a sétima (o cinema) e a sexta (a literatura) arte, em que me vem à mente uma frase atribuída a Chico Xavier que diz o seguinte, “a vida nem sempre segue a nossa vontade, mas ela é perfeita naquilo que tem que ser”.

E assim fiquemos com as lições que os personagens nos ensinam, eles sempre nos ensinam.

  “ A vida é complexa demais para ser esperada assim, como uma iluminação divina que vai bater à porta e entregar de bandeja todas as respostas. Pois, para seu governo, afirmo com todas as letras que essa encomenda nunca será entregue embalada para presente. Você precisa ir até ela.” (pg. 134). Essa frase é de Fit, o melhor amigo de Pedro.

 “ Aqui começa o maior filme de todos os tempos sobre as chances que o mundo coloca na vida das pessoas. Que as lições sejam aprendidas e voltemos milhões de vezes melhores do que quando partimos. Apenas os fortes sobrevivem, porque, mesmo a estrada sendo longa, já dizia o poeta: “Quem tem um porquê, enfrenta qualquer como.” ( pg. 146). Essa frase é de Cristal, a garota que na história lhe desperta um novo olhar para a vida.

Título: Surpreendente!

Autor: Maurício Gomyde

Editora: Intrínseca

Páginas: 272

Sinopse Oficial:

Aos 25 anos, recém-formado, Pedro está convencido de que é um sujeito muito especial, que tem a missão de usar o cinema como instrumento para melhorar o mundo. Diagnosticado na adolescência com uma doença degenerativa que o condenaria à cegueira, ele contraria a lógica da medicina quando a perda de sua visão estaciona de forma inexplicável. Enquanto comanda o último cineclube de São Paulo e trabalha em uma videolocadora da periferia, Pedro planeja seu próximo filme, a obra que vai consagrá-lo. E, para animar as coisas, conhece a intrigante Cristal, uma ruivinha decidida, garçonete e estudante de física nuclear, que mexe com seu coração.

A perspectiva idealista de Pedro, porém, sofre sérios abalos. Atormentado por um segredo, ele parte com os amigos Fit, Mayla e Cristal numa longa viagem até Pirenópolis, em Goiás, a bordo de um Opala envenenado. Com câmeras nas mãos e espírito de aventura, a equipe técnica improvisada está disposta a usar toda a sua criatividade na filmagem feita na estrada ao sabor de encontros inesperados e de sentimentos imprevisíveis. E o jovem cineasta descobre que, quando o destino foge do script, nada supera o apoio de grandes amigos.

Sobre o autor:

Maurício Gomyde nasceu em São Paulo e desde os três anos de idade vive em Brasília – “disparado a cidade mais bonita do mundo”. Surpreendente!  é seu sexto romance. Além de escritor, ele também é compositor e baterista.

Confira as nossas resenhas: A série Napolitana

As muitas nuances da série napolitana de Elena Ferrante

I Por Ligia Borges

I 15 de janeiro de 2018

 

Agora que terminei o último livro da tetralogia escrita por Elena Ferrante, posso dizer que tenho condições de fazer uma análise sobre essa série, mas antes de começar essa nossa conversa sobre os livros e sobre o mistério em volta da identidade da autora, divido com vocês a angustia que é escolher um só aspecto da série para explorar nessa discussão.

Digo isso porque existe uma pluralidade de temas tratados por Elena Ferrante nestes livros que daria para escrever uma nova tetralogia crítica, brincadeira. Tentarei ser objetiva e escolher apenas um dos pontos que muito me tocou nessa história que é a questão da metalinguagem e o processo de falar sobre a escrita de um romance dentro da própria história contada pela narradora que é uma das personagens principais, mas antes de ressaltar esse aspecto de construção da narrativa, vamos nos situar a respeito dos livros e da autora.

Elena Ferrante que assina a autoria dos livros é na verdade um pseudônimo, a verdadeira identidade da autora ainda é mantida em segredo até hoje.  Ferrante nunca apareceu em público e suas entrevistas são todas por email.

A série napolitana que é sucesso no mundo todo abarca quatro volumes, com cerca de 1.700 páginas, lançados aqui no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da Editoria Globo. São eles: A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e A História da Menina Perdida.

A história se passa na cidade italiana de Nápoles, no pós-guerra, e o ponto de partida é a infância e os laços de amizade entre duas meninas: Rafael Cerullo, Lila, e Elena Greco, Lenu. Ao retratar a vida das personagens, um recorte da infância à maturidade, a autora aproveita para nos dar um panorama social da Itália que tenta se reerguer e se reestrurar após o fim da II Guerra Mundial. Nesse contexto, há uma enorme reflexão sobre a condição feminina em meio a uma sociedade em que o machismo predomina e impõe seus obstáculos ao próprio progresso de uma nação.

Um aspecto da prosa de Ferrante, um pouco mais técnico, que eu gostaria de destacar, como afirmei no início, é a metalinguagem.  A narradora dessa história é a própria Elena Greco que conta a sua vida e a relação com sua melhor amiga, Lila, e fala também do seu processo de criação e escrita desse romance, no caso o próprio que estamos lendo. A série napolitana é também uma obra sobre a escrita, sobre escrever um livro que retrate o peso de uma amizade e sobre a história de um bairro que tenta se recuperar de uma guerra.

As duas amigas gostam muito de ler e escrever também.  Lila sempre teve o dom da escrita, é chamada por Elena de a amiga genial, mas é obrigada a interromper os estudos para se casar e, assim, permitir os negócios da família numa sapataria. Já Elena prossegue os seus estudos e se transforma uma intelectual e escritora aclamada. Mas é Lila quem é criativa, Elena precisa de Lila para escrever as suas histórias.

Como toda série, em determinados momentos, o leitor se sentirá um pouco cansado, até mesmo porque Ferrante conferiu tanta humanidade a seus personagens que em alguns pontos da trama começamos a acha-los tão teimosos e chatos em seus dilemas cotidianos que a gente se entedia. Pensando bem talvez essa seja uma grande qualidade da prosa de Ferrante, a humanização, e o fato de nos sentirmos fadigados com as aventuras de nossos personagens ocorra justamente por ela ter conseguido retratar com sucesso o ser humano e suas contradições.

Título: Série napolitana composta por quatro romances: A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e A História da Menina Perdida.

Autora: Elena Ferrante.

Editora: Biblioteca Azul.

Sinopse oficial: A Série Napolitana, formada por quatro romances, conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. O primeiro, A amiga genial, é narrado por Elena Greco e cobre  da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela.

As duas se unem, competem, brigam, fazem planos. Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella. As duas seguem caminhos diferentes.

Mais que um romance sobre a intensidade e complexa dinâmica da amizade feminina, Ferrante aborda as mudanças na Itália no pós-guerra e as transformações pelas quais as vidas das mulheres passaram durante a segunda metade do século XX. Sua prosa clara e fluída evoca o sentimento de descoberta que povoa a infância e cria uma tensão que captura o leitor.

Páginas: 1700

Sobre a autora: Elena Ferrante é pseudônimo de uma autora italiana, festejada pelo mundo afora como uma das mais belas prosas contemporâneas. Elena nunca mostrou o rosto, nem sequer deu alguma pista da sua verdadeira identidade. Nas raríssimas entrevistas que concede, todas por email, costuma dizer que já fez “ tudo que podia ter feito pelos seus livros escrevendo-os”.