Confira as nossas resenhas: Surpreendente!

Surpreendente paralelo entre a literatura, o cinema e a vida

I Por Ligia Borges

I 26 de março de 2018

Tem uma frase que faz parte do enredo do filme “ O fabuloso destino de Amelie Poulain” que diz mais ou menos o seguinte:  “ são tempos difíceis para os sonhadores”. Estabelecendo aqui um paralelo entre o cinema e a literatura, me arrisco a dizer que não existiria frase melhor para descrever Pedro, personagem principal da trama de Surpreendente!, do escritor Maurício Gomyde.

Pedro é um cara sonhador, daqueles que acreditam que com o seu jeito doce é capaz de sacudir o mundo. Estudante recém formado em Cinema aos 25 anos, o jovem cineasta sonha em utilizar a sétima arte como instrumento para tocar o coração das pessoas e melhorar a realidade a sua volta.

O rapaz é um otimista nato e vai tentando contagiar todos a sua volta com a sua paixão pelo cinema. Ele sonha em produzir o próprio filme, trabalha numa locadora de vídeos na periferia de São Paulo e promove num cineclube uma sessão de filmes que está quase sempre vazia, mas o desejo de emplacar os seus projetos o movem.  “ Preciso que ela (a dona Rebeca, que é a dona do espaço) continue acreditando na minha teoria de que o cinema, a música boa e a literatura são instrumentos da Santíssima Trindade para salvar o ser humano da derrota como espécie”. (pg.13)

Acontece que como cada um de nós, Pedro traz na bagagem as suas lutas e dilemas internos que vem tentando superar, um deles é a batalha contra uma cegueira degenerativa que contraria os prognósticos da medicina quando se estagna de forma inexplicável.

A questão toda é que a vida não obedece a scripts, o destino não aceita ser roteirizado porque este possui a sua forma própria de escrever os fatos e não abre mão dessa condição para dar voz e passagem a nossos desejos e anseios.  A maior parte dos acontecimentos não está sob nosso controle e é essa reflexão que faz com que essa história seja tão surpreendente. O destino de Pedro vai nos mostrar isso.

E como num roteiro em que a arte imita a vida, as coisas começam a sair do prumo e é, justamente, nesse ponto da história em que devo confessar que comecei a achar o nosso herói  um tanto quanto entediante para não falar outra palavra.

 A narrativa fica mais lenta, amarrada, parece que não deslancha e o leitor é obrigado a se deparar com a teimosia de um personagem que começa a se perder em seu próprio caos e encontra na sua turma de amigos a companhia para mergulhar em uma aventura rumo ao interior do Goiás, numa a viagem a Pirenópolis na qual Pedro tenta encontrar respostas para as suas angústias pessoais e seus amigos acreditam estar diante de um novo roteiro que vai revolucionar a historia do cinema, uma turma de inconsequentes em que começam a fazer um  tanto de bobagens em série. O autor até tenta romantizar um pouco essa busca do personagem e as aventuras da sua turma, mas devo confessar que achei essa parte da narrativa bem cansativa.

Mas a favor da trama, devo dizer que a história é cheia de pequenos detalhes que se conectam e imprimem à narrativa um ritmo de suspense, como se estivéssemos mesmo em um roteiro de cinema.

Enquanto pensava a respeito dessa trama e sobre a construção desses personagens, volto a traçar um paralelo entre a sétima (o cinema) e a sexta (a literatura) arte, em que me vem à mente uma frase atribuída a Chico Xavier que diz o seguinte, “a vida nem sempre segue a nossa vontade, mas ela é perfeita naquilo que tem que ser”.

E assim fiquemos com as lições que os personagens nos ensinam, eles sempre nos ensinam.

  “ A vida é complexa demais para ser esperada assim, como uma iluminação divina que vai bater à porta e entregar de bandeja todas as respostas. Pois, para seu governo, afirmo com todas as letras que essa encomenda nunca será entregue embalada para presente. Você precisa ir até ela.” (pg. 134). Essa frase é de Fit, o melhor amigo de Pedro.

 “ Aqui começa o maior filme de todos os tempos sobre as chances que o mundo coloca na vida das pessoas. Que as lições sejam aprendidas e voltemos milhões de vezes melhores do que quando partimos. Apenas os fortes sobrevivem, porque, mesmo a estrada sendo longa, já dizia o poeta: “Quem tem um porquê, enfrenta qualquer como.” ( pg. 146). Essa frase é de Cristal, a garota que na história lhe desperta um novo olhar para a vida.

Título: Surpreendente!

Autor: Maurício Gomyde

Editora: Intrínseca

Páginas: 272

Sinopse Oficial:

Aos 25 anos, recém-formado, Pedro está convencido de que é um sujeito muito especial, que tem a missão de usar o cinema como instrumento para melhorar o mundo. Diagnosticado na adolescência com uma doença degenerativa que o condenaria à cegueira, ele contraria a lógica da medicina quando a perda de sua visão estaciona de forma inexplicável. Enquanto comanda o último cineclube de São Paulo e trabalha em uma videolocadora da periferia, Pedro planeja seu próximo filme, a obra que vai consagrá-lo. E, para animar as coisas, conhece a intrigante Cristal, uma ruivinha decidida, garçonete e estudante de física nuclear, que mexe com seu coração.

A perspectiva idealista de Pedro, porém, sofre sérios abalos. Atormentado por um segredo, ele parte com os amigos Fit, Mayla e Cristal numa longa viagem até Pirenópolis, em Goiás, a bordo de um Opala envenenado. Com câmeras nas mãos e espírito de aventura, a equipe técnica improvisada está disposta a usar toda a sua criatividade na filmagem feita na estrada ao sabor de encontros inesperados e de sentimentos imprevisíveis. E o jovem cineasta descobre que, quando o destino foge do script, nada supera o apoio de grandes amigos.

Sobre o autor:

Maurício Gomyde nasceu em São Paulo e desde os três anos de idade vive em Brasília – “disparado a cidade mais bonita do mundo”. Surpreendente!  é seu sexto romance. Além de escritor, ele também é compositor e baterista.

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