Confira as nossas resenhas: O Quinze

O sertão de Queiroz

 

 I Por Ligia Borges

I 21 de junho de 2018

 

Antes de partirmos para uma análise, propriamente, de O Quinze, de Rachel de Queiroz, existem algumas curiosidades que eu gostaria de ressaltar. Vocês sabiam que esse livro foi escrito pela autora quando ela tinha 20 aninhos. Sim, “ com vinte anos de idade apenas, uma quase desconhecida escritora provinciana projetava-se na vida literária do país agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca”, dizia a crítica da época, ali pelos idos de 1930, quando o romance foi lançado.

E nessa hora é inevitável a gente fazer a comparação: o que eu estava fazendo aos vinte anos mesmo? Vá lá que nessa época eu já gostava de ler e escrever, mas certamente nem passava pela minha cabeça lançar um romance literário. E não estamos falando, certamente, de qualquer romance, mas de um texto com qualidade técnica e de um relato bastante humano e realista de um grave problema social.

Uma outra curiosidade que eu deixo aqui é o meu fascínio pelo sertão, pelo regionalismo e pelo romance de fundo social. “ Por ser de lá do sertão, do cerrado, lá do interior do mato, da caatinga do roçado…”, tomei a liberdade, a licença poética (adoro essa expressão), de catar esse trechinho de o ’ Lamento do Sertanejo’ – uma composição que não sei bem ao certo se é de Dominguinhos ou de Gilberto Gil ou dos dois juntos – só para ilustrar aqui a minha ligação com o sertão.

Meu avô, pessoa por quem eu nutri, durante toda a minha vida, grande admiração era um sertanejo, um forte, daqueles que enfrentou os horrores de terríveis secas e sobreviveu ao sertão de meu Deus. Como me emociona e me orgulha pensar nisso e escrever sobre esse tema. E é, justamente, nesse ponto que aproveito o gancho para adentrar na obra e na riqueza da prosa literária e jornalística de Raquel de Queiroz.

O Quinze retrata a grande seca que assolou o Ceará no ano de 1915. Só quem teve contato com a terrível realidade do sertão sem água consegue perceber o quanto a autora faz neste romance um relato fiel da seca, o quanto ela é brilhante nas descrições e na composição e caracterização desses personagens, é quase uma reportagem em forma de romance. Quem tem dinheiro e casa na cidade abandona suas posses, abre a porteira e solta o gado e vai-se embora do sertão. O gado cai de fome sem ter uma rama verde no pasto, água para beber então nem pensar, e o vaqueiro sertanejo, empregado da fazenda, é abandonado no mais triste descaso humano e social.

Os retirantes, Candido Portinari
Os retirantes, Candido Portinari

É um retrato tão triste da miséria humana e acontece pertinho da gente, do nosso ladinho e pouco nos damos conta, quando se está do lado de cá, na cidade grande. De vez em quando a gente vê uma reportagem na TV, mas quase sempre é um universo tão distante né?! E aqui eu aproveito esse gancho para falar do papel da literatura, ela possibilita que tenhamos contato com esse universo, que nos tornemos mais humanos, que entremos em contato com realidades muitas vezes tão diferentes das nossas. A literatura é importante não só para passarmos no vestibular, mas principalmente para termos a oportunidade de adentrarmos em universos como esses e de nos reconhecermos todos como seres humanos, capazes de sentir, de nos colocarmos no lugar um dos outros e fazermos alguma ação no sentido de alavancar a mudança e a transformação social. Ou senão, no mínimo, para reclamarmos menos e sermos mais gratos pela nossa realidade social, muitas vezes tão repleta de coisas boas e de facilidades.

Título: O Quinze

Autor: Rachel de Queiroz

Editora: José Olympio

Páginas: 157

 

Sinopse oficial: Esta obra discorre sobre a grande seca de 1915, de que Rachel tanto ouviu falar. Ceição convence Mãe Nácia a partir. Vicente quer ficar, salvar o gado. Dona Maroca manda soltar o gado. Chico Bento vende as reses e parte com a família. Chegará à Amazônia? Não consegue as passagens e vai indo a pé. Um retirante em meio à seca. A fome e o cangaço. Este é um drama da terra.

Sobre a autora: Rachel de Queiroz (1910-2003) foi uma escritora brasileira. A primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras, eleita para a cadeira nº 5, em 1977. Foi também jornalista, romancista, cronista, tradutora e teatróloga. Integrou o quadro de Sócios Efetivos da Academia Cearense de Letras. Seu primeiro romance “O Quinze”, ganhou o prêmio da Fundação Graça Aranha. O “Memorial de Maria Moura” foi transformado em minissérie para televisão e apresentado em vários países.

Rachel de Queiroz (1910-2003) nasceu, em Fortaleza, capital do Ceará, em 17 de novembro de 1910. Filha de Daniel de Queiroz Lima e Clotilde Franklin de Queiroz, descendente pelo lado materno da família de José de Alencar. Em 1917, foi para o Rio de Janeiro, junto com a família, que procurava fugir da seca que desde 1915 atingia a região. Mais tarde a romancista iria aproveitar o tema para escrever seu primeiro livro “O Quinze”. Pouco tempo depois, seguiram para Belém do Pará, onde passaram dois anos.

Leave a Reply

Your email address will not be published.