Confira as nossas resenhas: O Conto da Ilha Desconhecida

Em busca da ilha desconhecida …

I Por Ligia Borges

I 9 de maio de 2018

 

” É necessário sair da ilha para ver a ilha … não nos vemos se não saímos de nós…”.   O conto da ilha desconhecida, de José Saramago, foi um presentinho que ganhei da mãe de um dos meus melhores amigos. E ela me disse: ” Achei o livro a sua cara, Liginha, espero que goste”.  Curioso que essa frase dela ficou na minha cabeça de modo que direcionou o meu olhar para a leitura. Confesso que enquanto percorria as páginas dessa história buscava um sentido, tentando entender por que ela havia associado o livro a mim.

Trata-se de um livro pequeno com uma edição bem bonita, cheia de aquarelas, da Companhia das Letras, daqueles que a gente senta e lê de uma tacada só. E entende num passo de mágica também? Não, não entende.

Apesar de ser um conto, texto com uma estrutura curta, estamos diante daquele tipo de leitura que te engana pelo tamanho. Digo isso porque a história te toma e faz com que você mergulhe num mar de reflexões tentando apreender o sentido de tudo aquilo que foi dito. Estamos falando de Saramago, meu povo, não é tão simples assim. Existe uma pluralidade de sentidos escondidos nas entrelinhas. Existem nuances que só ganham formas a partir da experiência pessoal e da maturidade de cada um. E acredito que algumas delas só tomam corpo mesmo com um pouco mais de tempo após a leitura.

O ponto de partida dessa grande metáfora textual de Saramago, a busca da ilha desconhecida, é o desejo de um homem que movido pela ideia de encontrar a tal ilha bate na porta de um rei e exige um barco para que possa dar cabo a seu plano. E aí eu enxergo a primeira qualidade desse personagem: a firmeza de propósito, ele realmente acredita na existência dessa ilha e esse é um ponto contagiante tanto na história, porque ele mobiliza uma multidão, quanto na leitura porque ele nos inspira com essa atitude, a mim pelo menos inspirou.

“ … mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver”.

Outro personagem bastante importante nessa história é a mulher da limpeza que está sempre na porta das petições recebendo os pedidos feitos ao rei. Inspirada pela firmeza do homem que está em busca da ilha desconhecida, ela resolver sair pela porta das decisões e abandona o castelo para segui-lo. Outra metáfora de Saramago carregada de sentidos nas entrelinhas:

“ Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofícios, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira…”.

O homem movido pelo seu sonho de encontrar a ilha nem sonha que com a sua movimentação em busca do seu objetivo provocaria uma série de outras rotações que vão desencadear em uma série de outros movimentos.

“ O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e ouros asseios”.

Assim é a vida, ela se movimenta nas entrelinhas por mais que achemos em determinadas circunstâncias que está tudo parado e que “ é tudo igual”. E, confesso aqui, muitas vezes sou eu a autora dessa frase “ é tudo igual”. Daí precisa que venha o Saramago e nos diga que a vida faz as suas costuras também. (Se uma amiga estiver lendo isso aqui vai me dizer “ ah o Saramago dizendo você acredita né, dona Ligia? ”):

“Também é deste modo que o destino costuma comportar-se conosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro e nós ainda vamos a murmurar: acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual”.

E essa história continua com um desenrolar espetacularmente único e inacreditável, mas de forma alguma eu me atreveria a estragar a surpresa. Será que eles encontram a ilha desconhecida?  Deixo a vocês o convite a leitura e a esta incrível descoberta. Antes uma passagem para pensarmos a respeito.

“ Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar” … E voltando ao início do texto, a mãe do meu amigo acertou, este conto é realmente a minha cara … mas por quê? Mas aí já estaremos falando de uma outra ilha…

 

Título: O conto da ilha desconhecida

Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 64

 

Sinopse oficial: Um homem vai ao rei e lhe pede um barco para viajar até uma ilha desconhecida. O rei lhe pergunta como pode saber que essa ilha existe, já que é desconhecida. O homem argumenta que assim são todas as ilhas até que alguém desembarque nelas.

Este pequeno conto de José Saramago pode ser lido como uma parábola do sonho realizado, isto é, como um canto de otimismo em que a vontade ou a obstinação fazem a fantasia ancorar em porto seguro. Antes, entretanto, ela é submetida a uma série de embates com o status quo, com o estado consolidado das coisas, como se da resistência às adversidades viesse o mérito e do mérito nascesse o direito à concretização. Entre desejar um barco e tê-lo pronto para partir, o viajante vai de certo modo alterando a idéia que faz de uma ilha desconhecida e de como alcançá-la, e essa flexibilidade com certeza o torna mais apto a obter o que sonhou.

“…Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós…”, lemos a certa altura. Nesse movimento de tomar distância para conhecer está gravado o olho crítico de José Saramago, cujo otimismo parece alimentado por raízes que entram no chão profundamente.

Inédito em livro, O conto da ilha desconhecida é ilustrado por oito aquarelas de Arthur Luiz Piza.

 

Saramago tornou-se o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura.

Sobre  o autor: Nasceu em 1922, de uma família de camponeses da província do Ribatejo, em Portugal. Devido a dificuldades econômicas foi obrigado a interromper os estudos secundários, tendo a partir de então exercido diversas atividades profissionais: serralheiro mecânico, desenhista, funcionário público, editor, jornalista, entre outras. Seu primeiro livro foi publicado em 1947. A partir de 1976 passou a viver exclusivamente da literatura, primeiro como tradutor, depois como autor. Romancista, teatrólogo e poeta, em 1998 tornou-se o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Saramago faleceu em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, em 2010. A Fundação José Saramago mantém um site sobre o autor www.josesaramago.org

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