Confira as nossas resenhas: O Conto da Aia

O Conto da Aia, a distopia criada por Margaret Atwood

I Por Ligia Borges

I 25 de dezembro de 2018

 

Capa da nova edição de ‘O Conto da Aia’, feita por Laurindo Feliciano para a Rocco

Lançado em 1985, o romance O conto da Aia da escritora canadense Margaret Atwood voltou a ocupar a lista dos best sellers em 2016 e se mantem nela até hoje. Em ranking recente da Publishnews ,  que mostra uma prévia dos títulos mais vendidos no Brasil em 2018,  o livro ocupava o 4º lugar na categoria ficção.  A última lista com o ranking do ano deve ser divulgada no próximo dia 28.

As vendas da obra se intensificaram ainda mais com o lançamento da série para TV “ The handmaid’s tale” em 2017, distribuída pela plataforma de streaming Hulu, uma espécie de concorrente da Netflix. No Brasil, a série que foi premiada passou a ser exibida pelo canal Paramount, disponível para TVs por assinatura.

Outro fato que contribuiu ainda mais para aumentar a procura pelo “ O Conto” foi o contexto histórico político com uma onda conservadora que trouxe à tona o debate sobre as bases de sustentação da democracia, acentuado pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016 e pelo fortalecimento da candidata de extrema direita à presidência da França, Marine Le Pen, em 2017.

O livro é uma distopia, uma espécie de antítese do que seria uma utopia. Se na utopia a gente vislumbra a ideia de uma civilização ideal em que tudo funciona na mais perfeita harmonia e ordem, na distopia ocorre o contrário disso, o que se vê é uma espécie de utopia negativa  numa sociedade em que se vive sob condições de extrema opressão, desespero ou privação. E é justamente isso que vemos na República de Gilead, uma sociedade totalitária e opressiva fundamenta numa base teocrática na qual as mulheres são subjugadas e vistas como servas, um horror!

Em Gilead, a função das mulheres é procriar. Elas são catalogadas entre férteis e inférteis. A República de Gilead é fruto de um golpe. As “aias “, as mulheres tidas como férteis, são mantidas como servas na casa de comandantes do governo e são obrigadas a manter relações sexuais com eles na presença das esposas, inférteis, destes comandantes para que possam engravidar, um jogo horroroso de humilhação e submissão.

“ Existe mais de um tipo de liberdade, dizia tia Lydia. Liberdade para (grifo nosso), a faculdade de fazer ou não fazer qualquer coisa, e liberdade de (grifo nosso), que significa estar livre de alguma coisa. Nos tempos de anarquia era liberdade para.  Agora a vocês está sendo concedida a liberdade de.  Não a subestimem. “ (pg. 36).

Ilustração, ‘Pregnant’, das artistas Anna e Elena Balbusso, para edição internacional do livro pela Folio Society.
Ilustração, ‘Pregnant’, das artistas Anna e Elena Balbusso, para edição internacional do livro pela Folio Society.

Nessa sociedade, a fertilidade é um tesouro. A degradação do meio ambiente provocada pela radiação e pelos efeitos da guerra provocou queda nas taxas de natalidade do país. Offred, personagem principal e narradora dessa história, foi separada da sua família e confiscada como propriedade do governo pertencendo a castas das mulheres capazes de gerar filhos.

“ Mas isso está errado, ninguém morre por falta de sexo. É por falta de amor que morremos. Não há ninguém que eu possa amar, todas as pessoas que eu podia amar estão mortas ou em outro lugar. Quem sabe onde estão ou quais são seus nomes agora? Poderiam muito bem não estar em lugar nenhum, como eu estou para elas…” (pg.125)

A sociedade é toda estruturada sob um forte esquema de vigilância e tortura com essas aias para evitar qualquer tipo de rebelião.

Particularmente, esse não é o tipo de leitura que me atraia tanto, mas nem sempre, aliás, quase nunca, a função dos livros é somente a de entretenimento. O conto da aia é daquelas obras em que a literatura assume o seu papel contestador. Mais do que um debate sobre feminismo, o que vemos no Conto da Aia é uma discussão sobre questões humanitárias, sobre as consequências sociais que ocorrem quando direitos civis e liberdades individuais são relativizadas ou renegadas.

Claro que guardado todo o “exagero” criado pela ficção, e aqui me refiro à capacidade que uma distopia tem de criar o grotesco e acentuar excrescências sociais que tememos só de imaginar, a literatura de Atwood cumpre o seu papel de chamar a atenção para o estabelecimento desses direitos civis que devem estar sob constante vigilância porque vira e mexe vemos uma declaração aqui outra ali de figuras públicas que insistem em relativizá-los, ainda que não passem de declarações vazias e tenham muito mais uma função de palco e holofote para quem as proclame, cabe sempre lembrar que direitos civis  jamais devem ser relativizados.

 

Título: O Conto da Aia

Autor: Margaret Atwood

Editora: Rocco

Páginas: 366

 

Sinopse oficial: A história de ‘O conto da aia’ passa-se num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes – tudo fora queimado. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América. As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado – há as esposas, as marthas, as salvadoras etc. À pobre Offred coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar. Offred tem 33 anos. Antes, quando seu país ainda se chamava Estados Unidos, ela era casada e tinha uma filha. Mas o novo regime declarou adúlteros todos os segundos casamentos, assim como as uniões realizadas fora da religião oficial do Estado. Era o caso de Offred. Por isso, sua filha lhe foi tomada e doada para adoção, e ela foi tornada aia, sem nunca mais ter notícias de sua família. É uma realidade terrível, mas o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Com esta história, Margaret Atwood leva o leitor a refletir sobre liberdade, direitos civis, poder, a fragilidade do mundo tal qual o conhecemos, o futuro e, principalmente, o presente.

 

Sobre a autora: Uma das escritoras mais admiradas mundialmente, nasceu na cidade canadense de Ottawa, em 1939. Graduou-se em Artes na Universidade de Toronto e foi professora de Literatura Inglesa em várias universidades canadenses. Após viver períodos nos EUA, na França, na Inglaterra, na Itália e na Alemanha, hoje mora em Toronto. Recebeu diversos prêmios, como o Man Booker Prize de 2000 por O Assassino cego, Chevalier de l’Ordre dês Arts e dês Lettres e o Príncipe de Astúrias de 2008 pelo conjunto de sua obra, entre outros. Seus livros foram traduzidos para mais de trinta idiomas. É autora de mais de 35 obras de poesia, prosa e não ficção, entre elas O conto da aia, Dançarinas, Lesão corporal, Madame Oráculo, Olho de gato, A vida antes do homem, Vulgo Grace, O assassino cego, Oryx & Crake, Negociando com os mortos, A tenda e Buscas curiosas, todos publicados no Brasil.

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