Confira as nossas resenhas: Capitães da Areia

Quem são os Capitães da Areia?

 I Por Ligia Borges

I 8 de outubro de 2018

 

" e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche."
” e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche.”

Em Capitães da Areia, Jorge Amado lança mão da sua habilidade literária para trazer luz a um tema social que há muito perpassa a nossa sociedade e o faz por meio do relato de uma situação que, a meu ver, já se tornou atemporal. O autor nos convida a mergulhar nos subúrbios de Salvador para acompanhar a vida e o cotidiano dos meninos de rua: os temidos Capitães da Areia. Quem são? Onde vivem? O que fazem? Por que agem assim?

Um bando de crianças abandonadas entre 8 e 16 anos que vivem nas ruas de Salvador e são temidas e, ao mesmo tempo, ignoradas por uma sociedade que se sente vítimas delas.

Os garotos abandonados à própria sorte se refugiam num trapiche, lugar que utilizam para se abrigar, e preenchem sua vida – vazia de escola, moradia, comida, amor, respeito e carinho – com pequenos furtos, brigas  e diversos outros tipos de vandalismos que realizam pelas ruas de Salvador. Até aí, não vemos novidade alguma no relato dessa situação que qualquer reportagem de jornal daria conta de descrever.

O que diferencia esse relato, porém, é a sensibilidade de Amado que ultrapassa o olhar do problema social para imergir em uma viagem rumo ao lado humano dessa questão. A medida que avançamos no romance, vamos entendendo como se sentem essas crianças que, desde muito cedo, são obrigadas a se deparar com uma vida muito dura marcada pelo abandono e pela falta de amor, de horizonte, de perspectiva e de futuro. Mal tratados pelo sistema social e por todos, do que os Capitães da Areia sentem falta? De ter uma família, de carinho, de cuidado, de oportunidade, de respeito.

É difícil não se comover diante do dilema do Sem-Pernas, da sua sede de amor e ternura, de pertencer a uma família e conquistar um lugar digno em uma sociedade, mas o mal trato social e o abandono ao qual é submetido durante toda a sua vida o coisifica, o faz ir para o lado extremo dessa questão que é o endurecimento, o embrutecimento e a revolta diante de um sistema que só o penaliza.

“Os guardas vêm nos seus calcanhares. Sem-Pernas sabe que eles gostarão de o pegar, que a captura de um dos Capitães da Areia é uma bela façanha para um guarda. Essa será a sua vingança. Não deixará que o peguem, não tocarão a mão no seu corpo. Sem-Pernas os odeia como odeia a todo mundo, porque nunca pode ter um caminho. E no dia que o teve foi obrigado a o abandonar porque a vida já o tinha marcado demais. Nunca tivera uma alegria de criança. Se fizera homem antes dos dez anos para lutar pela mais miserável das vidas: a vida de uma criança abandonada. Nunca conseguira amar ninguém, a não ser este cachorro que o segue. Quando os corações das demais crianças ainda estão puros de sentimentos, o do Sem-Pernas já estava cheio de ódio. Odiava a cidade, a vida, os homens. Amava unicamente o seu ódio, sentimento que o fazia forte e corajoso, apesar do seu defeito físico…” (pg 251)

E cada um dos Capitães da Areia, Pedro Bala, o líder dos capitães; Pirulito, o garoto que queria ser padre; Professor, o ladrão de livros e o único garoto letrado do grupo; Volta-Seca, afilhado de Lampião; Gato, o galã do grupo, só para citar alguns deles, coleciona dramas e dores e, nesta realidade hostil, contam apenas com o apoio de um padre e de uma mãe-de-santo.

Assim nos vemos diante de um ciclo vicioso difícil de romper. Uma sociedade que pune esses Capitães da Areia porque tem medo deles e capitães que atacam uma sociedade porque são castigados o tempo todo por ela. Esse livro foi escrito há 81 anos. No Brasil de 1937, ele foi queimado acusado de ter ideias comunistas, por trazer luz para um problema que a nossa sociedade insiste em dizer que é vítima quando na verdade ela é parte dessa situação e hoje, 81 anos depois, ainda nos deparamos com essa triste situação dos Capitães da Areia em todas nossas cidades, das capitais ao interior e continuamos ignorando que somos parte desse problema.

Para escrever essa história, Amado foi dormir no trapiche com os meninos, talvez isso explique a empatia e riqueza de detalhes que encontramos nesse relato literário, mas ainda assim bastante real. Capitães da Areia foi traduzido para diversos idiomas e recebeu edições alemã, croata, espanhola, francesa, grega, japonesa, ucraniana, norueguesa e portuguesa.

Título: Capitães da Areia

Autor: Jorge Amado

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 296

Sinopse oficial: Publicado em 1937, pouco depois de implantado o Estado Novo, este livro teve a primeira edição apreendida e exemplares queimados em praça pública de Salvador por autoridades da ditadura. Em 1940, marcou época na vida literária brasileira, com nova edição, e a partir daí, sucederam-se as edições nacionais e em idiomas estrangeiros. A obra teve também adaptações para o rádio, teatro e cinema. Documento sobre a vida dos meninos abandonados nas ruas de Salvador, Jorge Amado a descreve em páginas carregadas de beleza, dramaticidade e lirismo.

Sobre o autor: Jorge Amado nasceu a 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado.

A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de samba em várias partes do Brasil. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas, existindo também exemplares em braile e em formato de audiolivro.

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