Confira as nossas resenhas: As intermitências da morte

O dia em que a morte decretou greve

I Por Ligia Borges

I 20 de agosto de 2018

 

 

A morte resolveu suspender as suas atividades. “ No dia seguinte ninguém morreu”. Assim Saramago começa a nos contar essa maravilhosa história que nos revela tanto sobre a genialidade do autor.  Com a sua imensa capacidade inventiva, ele dá voz e humanização a uma das figuras mais temidas da humanidade, a morte, e nos leva a refletir sobre o seu papel para o equilíbrio da vida e das instituições.

Sem nenhuma razão aparente, as pessoas simplesmente pararam de morrer num determinado país e, com o passar dos dias, uma série de instituições que dependiam da morte para existir começam a entrar em colapso. A igreja que vê o seu papel e até a sua própria condição de existência serem colocados em cheque porque sem a morte não há ressurreição, os hospitais, as casas funerárias e as seguradoras de vida são as primeiras instituições a se desesperarem diante do “ problema” e a pressionarem o Estado por uma solução. Este por sua vez se vê diante de uma crise sem saber ao certo quais medidas tomar para evitar um colapso social diante de situação tão inusitada.  O sistema previdenciário de pensões e aposentadorias, por exemplo, como ficaria diante da greve da morte?

Em meio a tudo isso, grupos começam a “ tirar proveito “ da situação e um estado paralelo começa a existir para dar um jeito de “ajudar” aquelas famílias que não teriam condições financeiras para levar seus doentes em fases terminais até as fronteiras dos estados de modo a lhes permitirem o “descanso eterno” nos países vizinhos.

De uma forma muito singular, Saramago nos leva a pensar a respeito do papel de cada uma dessas instituições e de diversos atores sociais e como se dão essas relações em nosso sistema social. E também de modo filosófico existencial ele nos leva a refletir sobre o papel da morte como condição de existência da própria vida.

E de maneira primorosa e surpreendente, ele também nos conta as razões e os motivos que estão por trás da greve da morte, grifada com “m” minúsculo. Esse livro é sensacional. Se eu fosse juíza do prêmio “criatividade e genialidade” certamente escolheria Saramago para entregar essa estatueta por As intermitências da morte. Sabe quando você termina de ler a última frase de um livro e fica boquiaberta? Estupefata, no melhor sentido da palavra. Pois então. “ No dia seguinte ninguém morreu”.

“Momentos de fraqueza na vida qualquer um os poderá ter, e, se hoje passamos sem eles, tenhamo-los por certo amanhã …” (pg 155). Nem a morte esteve a salvo destas surpresas.

Esse é o quarto livro de Saramago que leio. O primeiro contato que tive com o autor foi em Ensaio sobre a cegueira e não foi dos melhores, devo lhes confessar. Mas não desisti, avancei com O Evangelho segundo Jesus Cristo que achei brilhante, depois fui para O conto da Ilha desconhecida que achei maravilhoso e agora estas intermitências que me deixou encantada. Quero conhecer outros títulos.  Me indicam algum outro título do autor?

 

Título: As intermitências da morte

Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 207

 

Sinopse oficial: “Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto”, escreve José Saramago diante da representação tradicional da morte. Só mesmo um grande romancista para desnudar ainda mais a terrível figura.

Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. E foi nela que o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel da Literatura buscou o material para seu novo romance, As intermitências da morte. Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.

Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder “passar desta para melhor”. Os empresários do serviço funerário se vêem “brutalmente desprovidos da sua matéria-prima”. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”.

Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?

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