Confira as nossas resenhas: A insustentável leveza do ser

A insustentável leveza do ser

 I Por Ligia Borges

I 1º de junho de 2018

 

A leitura de A Insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, me fez refletir sobre como a experiência literária conversa com o nosso momento de vida e com a nossa bagagem de referências. Digo isso porque este livro me foi recomendando por uma amiga que tem muito bom gosto literário e todas as pessoas com quem conversei sobre ele, de certa forma, gostam bastante dessa história contada por Kundera. Não acho que o livro seja ruim, mas apenas o li no momento em que não estava tão predisposta a esta leitura, de modo que enrolei, divaguei, me perdi, enfim, o resultado foi que, para usar expressões da boa coloquialidade de nossa prosa falada por ai “não bateu”, não “demos liga”.

Para facilitar a nossa compreensão sobre esta história, resolvi dividir a minha análise em três eixos e com a finalidade de otimizar o nosso tempo, falarei rapidamente sobre cada um deles, mas me atentarei ao que mais me chamou a atenção dentro do meu processo de leitura.

Trata-se um romance filosófico que ao meu ver tem três linhas de sustentação: as relações amorosas entre quatro personagens (Tomas e Tereza, Sabrina e Franz) e essas aqui não me surpreenderam tanto, já as vi em vários outros romances que tratam de histórias de amor, na vida, essa parte me deixou um pouco entediada em alguns momentos, confesso, são relações complicadas, difíceis, permeadas de traições e paixões; o contexto histórico, pois essa história se passa em Praga, capital da República Tcheca no pós segunda guerra mundial quando a Rússia emerge como grande potência liderando o bloco socialista da União Soviética, essa parte é interessante porque mostra a situação de uma cidade em meio a uma realidade do pós- guerra, mas ainda sob atmosfera de uma nova guerra (a fria) ; e por último o eixo filosófico-existencial que foi o que mais me chamou atenção nesta leitura.

E começo tratando do título da obra “ A insustentável leveza do ser”, vocês conseguem perceber o paradoxo? Se é leve por que seria insustentável? Essa foi uma das primeiras perguntas que me fiz. E o autor  utiliza a vida dos personagens e as relações que eles estabelecem entre si e com o mundo para falar dessa dualidade da condição humana. “ No sábado e no domingo, Tomas tinha sentido a doce leveza do ser chegar até ele da profundeza do futuro. Na segunda-feira, sentiu-se oprimido por um peso que jamais conhecera. Todas as toneladas de ferro dos tanques russos não eram nada comparadas com esse peso. Não existe nada mais pesado que a compaixão. Mesmo a nossa própria dor não é tão pesada quanto a dor co-sentida com outro, por outro, no lugar de outro, multiplicada pela imaginação, prolongada por centenas de ecos”.

A interpretação que eu faço é de que até a leveza carrega em si um peso que, muitas vezes, de tão leve oprime o ser. Contraditório né?! É interessante como o autor nos leva a olhar para essas questões do ser. Tomas é um cara  que carrega em si a leveza de cada decisão, ele não reflete muito sobre as consequências dos seus atos, age um pouco por instinto, mas em alguns momentos essa leveza acaba se tornando um peso que ele se ve obrigado a carregar.

Ainda sobre essa discussão, em outro momento, outro personagem, dessa vez Sabrina, nos leva a refletir sobre esse  mesmo paradoxo. “ O drama de uma vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabrina? Nada. …   Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser. “

É interessante como o autor aproveita a história para trazer uma série de pensamentos que nos levam a refletir sobre nossa forma de estar no mundo. “ Uma pergunta para a qual não há resposta é uma cancela além da qual não há mais caminhos. Em outras palavras:  são precisamente as perguntas para as quais não há respostas que marcam os limites das possibilidades humanas e que traçam as fronteiras das nossas existência.”

Durante a leitura fui grifando diversos trechos que nos encaminham para as mais diversas reflexões. Mas vou me encerrar por aqui senão essa análise vai virar uma tese filosófica.

Antes, só mais uma coisa: tem um detalhe na história que eu não inseri dentro dos três eixos, mas me chamou a atenção que é a relação que os personagens Tomas e Tereza têm com a cachorrinha de estimação a Kareninn: uma ligação muito bonita de companheirismo e amor, muito evidenciada no último capítulo  “ O Sorriso de Kareninn”.

 

Título: A insustentável leveza do ser

Autor: Milan Kundera

Editora: Companhia das Letras (Companhia de Bolso)

Páginas: 312

 

Sinopse oficial: Lançado em 1982, este romance foi logo traduzido para mais de trinta línguas e editado em inúmeros países. Hoje, tantos anos depois de sua publicação, ele ocupa um lugar próprio na história das literaturas universais: é um livro em que o desenvolvimento dos enredos erótico-amorosos conjuga-se com extrema felicidade à descrição de um tempo histórico politicamente opressivo e à reflexão sobre a existência humana como um enigma que resiste à decifração – o que lhe dá um interesse sempre renovado.

Quatro personagens protagonizam essa história: Tereza e Tomas, Sabina e Franz. Por força de suas escolhas ou por interferência do acaso, cada um deles experimenta, à sua maneira, o peso insustentável que baliza a vida, esse permanente exercício de reconhecer a opressão e de tentar amenizá-la.

Sobre o autor: Nasceu na República Tcheca. Desde 1975, vive na França.

 

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