Causos Literários da Srta Borges: Se for de paz, pode entrar

Se for de paz, pode entrar

I Por Ligia Borges

I 2 de agosto de 2018

Já faz algum tempo que um leitor aqui do estoriando me fez um pedido. Ao ler o texto  O Jardim e a Literatura de Jorge Amado e Zélia Gattai  sobre a minha visita a Casa de do Rio Vermelho , em Salvador, ele me disse que gostaria de ler um outro texto menos informativo, menos jornalístico e mais subjetivo em que eu descrevesse as minhas emoções e sentimentos ao visitar aquele espaço. Esses dias, eu atendi o pedido dele e compartilho esse texto aqui com vocês, meus queridos leitores.

 

Brasília, 10 de julho de 2018

Evandro,

Já se passaram quatro meses desde que estive na Casa do Rio Vermelho, a residência onde viveu por mais de 40 anos o casal de escritores baianos Jorge Amado e Zélia Gattai. O tempo transcorrido desde que visitei o refúgio dos escritores fez com que eu tivesse uma outra visão da casa, dos objetos e até mesmo da  própria sensação experimentada durante aquela manhã em que me hipnotizei enquanto observava os detalhes e referências que marcaram a vida e a obra do casal dos escritores. O distanciamento dos fatos, às vezes, faz com que a nossa memória imprima uma espécie de idealização ou romantize algumas experiências que, neste caso, acredito se tratar de algo positivo, afinal de contas estamos falando de uma vivencia subjetiva e literária.

Se você tivesse me pedido para relatar essas experiências nos primeiros dias da minha visita, eu me prenderia a informações que apurei a respeito da vida do casal de escritores, das influências deles, da obra literária, como o fiz no outro texto, muito mais objetivo e informativo, pois a minha preocupação, certamente, era registrar os dados que colhi naquela visita e mostrar para as pessoas a existência desse espaço e o que ele oferecia em termos de insumo cultural para aqueles que estivessem de passagem por Salvador e quisessem conhecer um pouco mais da vida e obra dos escritores.

Passado esse tempo e superada essa necessidade informativa já que o outro texto cumpriu este papel que eu mesma me impus, quero compartilhar contigo aqui o que realmente senti visitando aquele espaço, me desprendendo um pouco da “obrigação” jornalística de te informar sobre a obra dos escritores, já que você se interessou mais pela minha experiência e emoções sentidas naquele espaço.

Pois bem, a primeira coisa que fiz ao subir as escadas que dão acesso à casa foi me deslumbrar com o jardim que também poderia ser o quintal. Ao me ver naquele espaço, logo me chamou a atenção o banquinho branco  e colorido, ficou contraditório isso né, mas ele era colorido de vitrais como se fosse um mosaico. E dali de onde era possível avistar uma plaquinha com a seguinte descrição:

“Sento-me contigo no banco de azulejos à sombra da mangueira, esperando a noite chegar para cobrir de estrelas teus cabelos. Zélia de Euá envolta em lua: da-me tua mão, sorri teu sorriso, me rejubilo no teu beijo, laurel e recompensa”.

Ali parei por um tempo e me pus a observar sozinha o canto dos pássaros e as várias referências ao candomblé espalhadas pelos jardins dos escritores. Enquanto os demais visitantes faziam fotos, observavam os outros espaços, compravam um lanche ou aguardavam a hora da visita guiada eu observava aquele jardim e sentia uma imensa paz. O lugar é bem convidativo a meditação e acalma que é uma beleza, te digo isso porque sobressai nele os dois sons que mais me trazem paz que é o diálogo dos pássaros e o correr das águas. Há uma pequena cascata onde as águas caem nas pedras e aquilo acalma que é uma beleza, já os passarinhos estão por toda  parte e como cantarolam viu?!

O jardim é cheio de sapos e aí temos um detalhe, eu tenho fobia de sapos, não consigo encará-los, eles me perturbam, mas a paz que senti naquele espaço foi tamanha que tudo bem, eu não os encarava e eles eram de barro. Poderia existir um ou outro de verdade no jardim úmido, mas não me prendi a isso.

Na lateral do banquinho onde eu estava sentada eu observava uma das plaquinhas e esta me lembrava que as cinzas de Zélia e Jorge foram depositadas ali. E aquilo me fazia refletir sobre o amor, sobre quão maravilhoso e que sorte deveria ser encontrar alguém que partilhasse dos mesmos valores que você e que pudessem estar juntos e dividir um espaço em comum como aquele.  E é interessante como a presença deles se faz presente naquele espaço, é uma presença leve, suave, literária.

As referências ao candomblé mencionam o tempo todo os orixás que seriam seus protetores, Oxóssi e Oxum de Jorge e Zélia, respectivamente, e enquanto observava aquelas referências eu também me lembrava que gostaria de ir atrás do meu orixá, saber de quem eu sou filha no candomblé, ainda não descobri essa informação. Gosto de pesquisar coisas assim, porque acredito que é uma forma de se descobrir um pouco mais a respeito de si mesmo, saber qual é o meu orixá é que nem saber o meu signo, o meu ascendente, traçar o meu mapa astral. Eu adoro esse sincretismo. Adoro fazer por mim mesma esses links com a minha personalidade. São insumos, acredito eu, que faz com que olhemos para a gente e reflitamos se temos mesmo tais características ou não. É uma “descontração instrospectiva” que te acrescenta quando você utiliza para o bem.

Dentro da casa, dos cômodos o que muito me chamou a atenção foi a biblioteca por razões de “ estamos falando de ter uma biblioteca em casa”.  A biblioteca é repleta dos livros escritos pelo dois, com diversas edições e traduções para diversos idiomas. É um espaço bem iluminado, tem um janelão  com vista para a antiga piscina da casa que foi transformada numa fonte cheia de sapos, ah neim, lembro que evitei ficar olhando para fora. Enquanto observa os livros, pensava “ caramba, quão legal é você viver da palavra, seu oficio ser a palavra escrita e você por meio dela sair por aí, divertindo gente mundo afora, espalhando a nossa cultura, a cultura baiana, formando leitores. “ A biblioteca foi um espaço em que eu gastei alguns minutos a mais que os outros cômodos e gastaria ainda mais.

Minha irmã, Cláudia Borges, observando a coleção de livros de Jorge Amado e Zélia Gattai
Minha irmã, Cláudia Borges, observando a coleção de livros de Jorge Amado e Zélia Gattai

Saindo da biblioteca adentramos em outro espaço que muito me chamou atenção. A família montou uma espécie de “gaveteiro”, para expor as cartas trocadas pelo casal de escritores com artistas amigos influentes da época e familiares. Claro, logo me atentei para a carta trocada com Drummond por motivos de “ eu adoro Drummond, gosto da sutileza das palavras dele, de seu pessimismo delicado em ‘ … e agora José?’, do seu espírito crítico em‘ … mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução’, e de seu romantismo em ‘as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão’, sei lá Drummond era um cara com quem eu acho que iria amar sentar para tomar um café e trocar várias ideias sobre a vida”, achei muito legal eles terem trocado correspondências; gastei uns minutinhos a mais nesse espaço tentando ler essas cartinhas, lembro que achei legal uma carta de Zélia dizendo que tinha comprado livros para um de seus netos com quem se comunicava numa cartinha escrita em papel de cartas, fato este que me remeteu imediatamente  a minha infância, eu fui uma colecionadora de papeis de carta, isso me trouxe uma doce lembrança.

Antes de terminar esse texto, gostaria de compartilhar outro fato banal que a guia explicou durante a visita mas foi um detalhe que me marcou, não saberia dizer racionalmente por quê, mas Carybé é um artista bastante presente na Casa de Jorge e Zélia, é dele a criação dos famosos azuleijos que enfeitam algumas paredes da casa. Além dos azuleijos, Carybé esculpiu em forma de pássaros as ripas, quinas do telhado da lateral da casa, um mimo para agradar Jorge.

Saindo da casa, fui visitar a lojinha que vende artigos decorativos. Comprei um imã de geladeira porque faço coleção e fiquei com vontade de trazer um azuleijo no melhor estilo Carybé onde se lia “ se for de paz, pode entrar”, a foto lá no início do texto, mas  deixei para a próxima. Me arrependi tão logo pisei em Brasília, lógico, de modo que vivo hoje caçando uma oportunidade de ter um conhecido próximo que vá a Salvador para eu fazer essa encomenda. Mas guardarei esse detalhe e esse capricho da minha vontade como uma oportunidade, quem sabe, de voltar áquela casa e revisitá-la.

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