Causos Literários da Srta Borges: A casa do Rio Vermelho

O Jardim e a Literatura de Jorge Amado e Zélia Gattai

I Por Ligia Borges

I 18 de abril de 2018

Já faz um tempo que venho incluindo nas minhas viagens e andanças por aí uma pitada literária, além das visitas aos jardins e às flores, é claro.  E na semana passada eu consegui o privilégio de conciliar num mesmo espaço estas duas paixões: o jardim e a literatura. Admiradora que sou das flores e dos livros, aproveitei a minha passagem por Salvador para conhecer a Casa do Rio Vermelho de Jorge Amado e Zélia Gattai. O espaço reúne toda história pessoal do casal de escritores.

Entrada de acesso a Casa do Rio Vermelho na Rua Alagoinhas, nº 33 em Salvador (BA).

A casa está localizada na Rua Alagoinhas, nº 33, no bairro do Rio Vermelho. O casal viveu nesta casa por mais de 40 anos e, de certa forma, podemos dizer que ainda permanecem por lá. Cada cantinho da casa é preenchido pelos objetos que os inspiravam, pelos presentes de inúmeros amigos que os encantavam e eram encantados por eles.

A casa respira poesia, exala cultura e transpira arte. O grande jardim logo na entrada é um reduto de paz e harmonia. A gente senta nos banquinhos, ouve o canto dos pássaros e imediatamente entra em outra vibração, desacelera. O espaço, segundo contam, era o grande xodó dos escritores, ali eles namoravam, sentavam para conversar, recebiam os amigos. Num banquinho decorado de azulejos, embaixo de uma mangueira, estão as cinzas do casal.

Neste espaço foram depositadas as cinzas do casal de escritores.

“ Sento-me contigo no banco de azulejos à sombra da mangueira, esperando a noite chegar para cobrir de estrelas teus cabelos. Zélia de Euá envolta em lua: da-me tua mão, sorri teu sorriso, me rejubilo no teu beijo, laurel e recompensa”, diz a inscrição de uma plaquinha singela logo na entrada do jardim.

Os jardins são cheios de referências ao candomblé e aos orixás Oxóssi e Oxum protetores de Jorge e Zélia, respectivamente. Neste espaço, foram montadas também cabines com projeções e depoimentos de personalidades importantes, amigos, parentes sobre a vida e a obra dos dois escritores.

“Não sou religioso mas tenho assistido a muita mágica. Sou supersticioso e acredito em milagres. A vida é feita de acontecimentos comuns e de milagres”, a relação entre o escritor e o candomblé é um traço marcante de suas obras.

“ Depois que foi apresentado à magia do candomblé, aos 15 anos de idade, Jorge Amado se tornou um frequentador assíduo dos terreiros. Filho de Oxóssi, foi amigo das grandes mães de santo de Salvador e lutou de forma incansável contra a violência e a intolerância, e a favor da liberdade religiosa no Brasil. Essa luta de uma vida inteira transformou Jorge Amado em um dos mais importantes defensores do candomblé e da cultura negra da Bahia” diz uma inscrição na porta de uma das cabines.

Saindo do jardim e adentrando na casa de Jorge e Zélia, devo lhes dizer que o tour é uma dééélicinha de fazer e vale muito a pena ter um pouquinho de paciência e acompanhar a visita guiada para descobrir as histórias e bastidores de cada cômodo. A casa é uma verdadeira obra de arte, repleta de causos, de inspirações. Cada canto da casa tem a participação de artistas amigos do casal. Cabe aqui um destaque para os azulejos do artista plástico Carybé que está presente em cada detalhe da casa, inclusive nas vigas de madeira que sustentam o telhado e que o artista fez um acabamento que simula um pássaro esculpido prestes a voar. Nas portas, Carybé talhou figuras geométricas ligadas a espaços vazios para permitir a entrada natural da luz e ventilação. A casa é cheia de detalhes e o visitante se perde observando cada um deles.

Um cômodo que muito me chamou a atenção foi o quarto de hóspedes, aconchegante com uma cama de alvenaria que abrigou personalidades importantes como Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Pablo Neruda, Tom Jobim, Dorival Caymmi em visita ao Rio Vermelho. Outro espaço que muito me encantou foi o cômodo que expõe as cartas trocadas pelo casal com outros escritores, artistas da época e seus netos. Me perdi no tempo e do grupo lendo as cartinhas trocadas entre o casal e Carlos Drummond e José Saramago.

Este era o quarto que hospedou personalidades importantes e amigos do casal, como a própria Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, conhecidos filósofos existencialistas franceses. Atentem para os azulejos de Carybé, presentes em toda a casa.

Há outros espaços bastantes interessantes da casa como a cozinha, o quarto do casal, a piscina, mas um espaço que muito me fascinou, advinhem qual foi? A biblioteca de Jorge, cheinha de livros. O escritor escreveu ao todo 40 livros que foram traduzidos para 50 idiomas e um dos mais famosos foi Gabriela, Cravo e Canela.

A biblioteca de Jorge hoje abriga todas as suas obras que foram traduzidas para 50 idiomas.

A Casa do Rio Vermelho está repleta de referência pessoais do casal de escritores. Há outro espaço dedicado ao trabalho e obra literária de Jorge Amado que é a Fundação Jorge Amado que fica no Largo do Pelourinho lá em Salvador, essa eu ainda não tive tempo de explorar, mas eu tenho mais um motivo para retornar em breve a Salvador que, aliás, vou lhes dizer a Cidade da Bahia, como era chamada a antiga capital baiana, respira literatura. Soube por lá de alguns bastidores sobre as andanças de Gregório de Matos Guerra, o boca do inferno que vou dizer viu, ó paí, ó. Mas isso aí já é causo para outra coluna e para outro dia …

 

Salvador, 13 de abril de 2018

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