Contos misteriosos do Sr. Fernandes

Prólogo

Vale Doce era um bairro em forma de cidade. Não tão grande como uma capital, mas não tão pequeno como um bairro nobre. Poderia-se dizer que era uma cidade pequena, pelo tamanho, mas comum PIB elevado. Localizado estrategicamente em um vale rodeado por montanhas, uma floresta profunda e por um lago extenso, o Pêssego (pelo seu formato), ele tem um acesso difícil, mas não somente pela sua geografia, mas sim pelo custo de vida. Era conhecido pelo padrão de vida elevado, colégio de molde tradicional, e de excelência, um local seguro para se morar, porém, não são todos que podem pagar o preço.

Sabendo disso, muitas famílias vão para “O Vale” à procura de uma vida mais tranquila, porém sem abrir mão do luxo e do conforto. É importante também que se tenha um colégio com educação ímpar, mesmo para os mais desajustados. Para isso, a Escola de Ensino Médio Albert Einstein é a melhor opção. Professores com mestrado, tablets no lugar de cadernos, ternos como uniformes, nível de exigência alto, time de voleibol só para ocupar o tempo e os hormônios dos jovens, educação exemplar! Porém, nem tudo está no controle dos pais ou da escola, pois jovens são jovens, e eles gostam de festas.

Era a última festa antes das aulas. Como a maioria das festas não-oficiais da cidade, o local preferido era à beira do Lago Pêssego, ou Pesse, como eles gostavam de chamá-lo. Bebida e bebida à vontade, e a música alta saia dos carros tunados na beira do lago.

Sempre era o mesmo cenário, os nerds não eram convidados (a maioria não se importava, pois sábado era noite de RPG, vídeo game ou maratona Star Wars), os populares ocupavam o lugar de destaque, esses eram formados pelo time de basquete e pelas garotas populares da escola. Entretanto, como toda festa, tinha os seus penetras; pessoas que não eram convidadas, mas, como o lago era um lugar público, iam mesmo assim. Os motivos que eram diferentes; tinham os recém-chegados na cidade, e buscavam se enturmar e tinham aqueles que não se importavam pela alta sociedade escolar e iam justamente para irritá-los. Podemos destacar que, nesse grupo de “rebeldes” tínhamos várias tribos; os roqueiros, os góticos, os rappers, os skatistas e, claro, os sem tribos.

Da turma de vôlei, os destaques eram o ponteiro Alan sempre seguido pelo levantador Patrick e pelo líbero Nelson. Completava o time titular o atacante Fred, o central Yan e o outro ponta, Marcelo. Entre as garotas populares da escola e da cidade, o destaque era para o popular “quarteto fantástico”, formado por Léia, Cléo, Val e Penélope, a sua líder. Todos sabiam da relação dos jogadores e essas garotas, namoricos e paixões adolescentes, sabiam também que um jogador que ficasse com alguém fora do seu “meio” seria considerado esquisito. Pois Fred era o esquisito. Ele, embora tivesse um affair com a “fantástica” Cléo, se envolvia com a excluída Nathália, que, junto com as amigas Emília (chamada pelas demais de Emily) e Cristiana, a “Cris”, formavam um trio punk gótico, as “nêmeses” do quarteto fantástico.

A festa ocorria, já no fim da tarde, da mesma forma de sempre, som alto, bebedeira, brincadeiras sem graças, nenhuma novidade, até que Penélope percebeu que Cléo tinha o olhar fixo em algum ponto distante. Quando a jovem pôde encontrar para onde a amiga estava olhando, ela entendeu o porquê do olhar imóvel. A garota vira Fred conversando com Nathália e tentou puxar assunto com a amiga, tentando desviar a sua atenção:

— Amiga, daqui a pouco temos que ir embora, lembra que amanhã é dia de irmos ao abrigo? Já está anoitecendo e precisamos acordar cedo.

Cléo, não disfarçando a irritação, respondeu:

— Não entendo o que o Fred faz com aquela esquisita de botas — referindo-se às botas de Nathália, acessório quase inseparável da garota. — Eles estão conversando há um tempão! — ela tinha ignorado a sugestão da amiga e continuava a encarar o casal.

Penélope acreditava que a festa já tinha acabado para a amiga, pois Cléo estava muito irritada com a situação. Enquanto isso, Alan, o seu namorado, se aproximava das duas, já um pouco alterado pelo efeito do álcool:

— E aí garotas, estão com essas caras por quê? A festa mal começou! — disse abraçando as duas garotas.

— Nada, só o Fred com a Nathália. Isso é tão irritante! — respondeu Cléo, ainda olhando para o casal.

— O Fred? Cara, ele parece estranho às vezes mesmo, nem parece meu amigo! — falou o garoto soltando uma gargalhada.

— Não enche Alan, não vê que a Cléo gosta realmente do Fred? Parece que a Nathália só está com ele para de divertir às custas da Cléo, ela sabe que eles ficam — retrucou Penélope, sendo solidária à amiga.

— Calma gatinha, — disse o rapaz fazendo um carinho no rosto da namorada — se o problema é esse, é fácil de resolver. — deu um gole na lata que segurava e jogou-a fora.

Enquanto Penélope pegava a lata do chão, para colocar em algum lixo, o namorado se afastava das duas em direção ao casal que conversava distante. “O que ele está fazendo?”, pensou a jovem.

Ao mesmo tempo em que ele se aproximava do casal, as outras amigas, Val e Léia, se aproximaram:

— E aí Penélope, vamos embora? — disse Val para a amiga — O que vocês estão olhando?

Penélope e as suas amigas inseparáveis viram a cena de longe: Alan se aproximando de Fred, falando com rapaz como se a sua companhia não estivesse lá. Abraçando o amigo, ele lhe diz algo, mudando a fisionomia da garota de botas, que agora olha para os dois com seriedade e desconfiança. Alan fala mais alguma coisa e se afasta, retornando em direção à Penélope. Fred chama pelo amigo, que não responde, ele tenta conversar com a garota e ela o repele gesticulando as mãos, dando às costas ao rapaz e indo embora, se reunindo com as suas amigas, que até então, estavam despercebidas pelo quarteto que observava toda a situação.

Alan agora já estava próximo à Penélope com um sorriso malicioso enquanto Fred estava parado, pensando no que tinha acontecido.

— O que você disse a eles? — perguntou Penélope ao namorado.

— Nada demais Amor, só disse que tínhamos uma festa particular e que ela não estava convidada, pois tínhamos os pares perfeitos. — continuou com a malícia no rosto.

Penélope não pôde fazer mais perguntas, Fred vinha enfurecido atrás do capitão do time:

—Por que você fez aquilo, cara?! Não precisava disso, a garota foi embora puta da vida!

— Relaxa garanhão, aqui tem garotas melhores, a Cléo, por exemplo, ela sim é mulher pra você! Não aquele projeto de biscate que só quer saber de dinh….

Alan não terminou a frase, Fred já tinha avançado sobre ele e acertado um soco no rosto. Os dois se engalfinharam e rolaram no chão, mas os demais jogadores do time chegaram a tempo da situação piorar.

— Não devia ter feito isso seu babaca — Alan limpou o sangue que escorria no canto esquerdo da boca –— Você sabe que é verdade e que tá perdendo o seu tempo, eu fui seu amigo!

— Amigo?! Você é um idiota que pensa que é dono do time, dos jogadores e da escola, vai se ferrar!

Antes que a briga recomeçasse, Cléo puxou Penélope, pedindo para irem embora. A amiga concordou sem hesitação, chamando as outras duas, e argumentando aos garotos que poderiam ficar brigando a noite toda, mas para elas, já tinham visto o suficiente para acabar com a festa.

— Pra mim essa festa já deu também — disse Alan. — Você Fred, pode ir a pé pra casa, pois o seu “amigo” aqui não vai te dar carona.

Fred deu de ombros e foi embora, já conhecia o caminho do lago até em casa, pois, durante o verão, corria sempre nesse percurso, para chegar ao time em plena forma física.

A noite chegara e tinha esfriado muito, típico para o clima de floresta, a lua era Cheia, para os mais românticos, motivo para sair de casa e, para os mais místicos, motivo de cautela. Para Fred, isso não importava, ele estava bêbado, sozinho, com frio e com uma vontade imensa de urinar. Pensou em fazer ali, na beira da estrada mesmo, mas poderia ser facilmente incomodado pelos festeiros ou pelos seus “colegas” de time. Resolveu entrar na mata, para que não fosse perturbado por ninguém.

Durante o seu ato fisiológico ouviu um barulho, não se incomodou muito, porém o barulho foi se aproximando, como se duas pessoas estivessem vindo em sua direção.

— Q-quem está aí? — perguntou o jovem, já assustado.

Ninguém ou nada respondeu, porém o som da aproximação era nítido. O rapaz, tentando mostrar segurança, falou em tom mais alto:

— Alan, chega de babaquice por hoje cara, não estou com vontade pra mais brincadeiras idiotas — o rapaz mal tinha acabado de urinar e fechou o zíper, molhando as calças.

Novamente não houve respostas, mas sim um barulho diferente, definindo que realmente não eram duas pessoas, mas sim algum animal de quatro patas.

Sabendo que não era humano, que aquilo deveria ser um animal grande, e que começava a ouvir um rosnar crescente em sua direção, Fred começou a correr de volta à estrada. Pelo seu afoitamento, o rapaz tropeçou e caiu no chão rolando ribanceira abaixo, na parte mais densa da floresta.

Ele se levantou e começou a correr novamente. Só xingava e pensava em encontrar qualquer pessoa na estrada, Nathália, Cléo ou até o babaca do Alan! Percebeu que o que estava atrás dele se aproximara e, mesmo sem poder ver o que era, sabia que era algo grande, feroz e deveria estar com fome! O jovem esqueceu seus pensamentos e começou a gritar por socorro, porém a fera atrás dele o alcançou e com um salto o derrubou. Fred sentia o peso de um time inteiro em suas costas. Pensou em virar para tentar se defender daquele animal, mas não deu tempo. A besta começou a dilacerar as suas costas com as garras, arrancando-lhe a jaqueta do time, perfurando a sua carne até chegar às costelas. Fred sentiu dor no começo, pensava que animal poderia ser aquele. Se era uma onça, um cão selvagem ou um lobo, mas depois de alguns segundos, ele não pensava mais nisso, não sentia mais dor, só um frio que o consumiu até o fim.