Confira as nossas resenhas: Surpreendente!

Surpreendente paralelo entre a literatura, o cinema e a vida

I Por Ligia Borges

I 26 de março de 2018

Tem uma frase que faz parte do enredo do filme “ O fabuloso destino de Amelie Poulain” que diz mais ou menos o seguinte:  “ são tempos difíceis para os sonhadores”. Estabelecendo aqui um paralelo entre o cinema e a literatura, me arrisco a dizer que não existiria frase melhor para descrever Pedro, personagem principal da trama de Surpreendente!, do escritor Maurício Gomyde.

Pedro é um cara sonhador, daqueles que acreditam que com o seu jeito doce é capaz de sacudir o mundo. Estudante recém formado em Cinema aos 25 anos, o jovem cineasta sonha em utilizar a sétima arte como instrumento para tocar o coração das pessoas e melhorar a realidade a sua volta.

O rapaz é um otimista nato e vai tentando contagiar todos a sua volta com a sua paixão pelo cinema. Ele sonha em produzir o próprio filme, trabalha numa locadora de vídeos na periferia de São Paulo e promove num cineclube uma sessão de filmes que está quase sempre vazia, mas o desejo de emplacar os seus projetos o movem.  “ Preciso que ela (a dona Rebeca, que é a dona do espaço) continue acreditando na minha teoria de que o cinema, a música boa e a literatura são instrumentos da Santíssima Trindade para salvar o ser humano da derrota como espécie”. (pg.13)

Acontece que como cada um de nós, Pedro traz na bagagem as suas lutas e dilemas internos que vem tentando superar, um deles é a batalha contra uma cegueira degenerativa que contraria os prognósticos da medicina quando se estagna de forma inexplicável.

A questão toda é que a vida não obedece a scripts, o destino não aceita ser roteirizado porque este possui a sua forma própria de escrever os fatos e não abre mão dessa condição para dar voz e passagem a nossos desejos e anseios.  A maior parte dos acontecimentos não está sob nosso controle e é essa reflexão que faz com que essa história seja tão surpreendente. O destino de Pedro vai nos mostrar isso.

E como num roteiro em que a arte imita a vida, as coisas começam a sair do prumo e é, justamente, nesse ponto da história em que devo confessar que comecei a achar o nosso herói  um tanto quanto entediante para não falar outra palavra.

 A narrativa fica mais lenta, amarrada, parece que não deslancha e o leitor é obrigado a se deparar com a teimosia de um personagem que começa a se perder em seu próprio caos e encontra na sua turma de amigos a companhia para mergulhar em uma aventura rumo ao interior do Goiás, numa a viagem a Pirenópolis na qual Pedro tenta encontrar respostas para as suas angústias pessoais e seus amigos acreditam estar diante de um novo roteiro que vai revolucionar a historia do cinema, uma turma de inconsequentes em que começam a fazer um  tanto de bobagens em série. O autor até tenta romantizar um pouco essa busca do personagem e as aventuras da sua turma, mas devo confessar que achei essa parte da narrativa bem cansativa.

Mas a favor da trama, devo dizer que a história é cheia de pequenos detalhes que se conectam e imprimem à narrativa um ritmo de suspense, como se estivéssemos mesmo em um roteiro de cinema.

Enquanto pensava a respeito dessa trama e sobre a construção desses personagens, volto a traçar um paralelo entre a sétima (o cinema) e a sexta (a literatura) arte, em que me vem à mente uma frase atribuída a Chico Xavier que diz o seguinte, “a vida nem sempre segue a nossa vontade, mas ela é perfeita naquilo que tem que ser”.

E assim fiquemos com as lições que os personagens nos ensinam, eles sempre nos ensinam.

  “ A vida é complexa demais para ser esperada assim, como uma iluminação divina que vai bater à porta e entregar de bandeja todas as respostas. Pois, para seu governo, afirmo com todas as letras que essa encomenda nunca será entregue embalada para presente. Você precisa ir até ela.” (pg. 134). Essa frase é de Fit, o melhor amigo de Pedro.

 “ Aqui começa o maior filme de todos os tempos sobre as chances que o mundo coloca na vida das pessoas. Que as lições sejam aprendidas e voltemos milhões de vezes melhores do que quando partimos. Apenas os fortes sobrevivem, porque, mesmo a estrada sendo longa, já dizia o poeta: “Quem tem um porquê, enfrenta qualquer como.” ( pg. 146). Essa frase é de Cristal, a garota que na história lhe desperta um novo olhar para a vida.

Título: Surpreendente!

Autor: Maurício Gomyde

Editora: Intrínseca

Páginas: 272

Sinopse Oficial:

Aos 25 anos, recém-formado, Pedro está convencido de que é um sujeito muito especial, que tem a missão de usar o cinema como instrumento para melhorar o mundo. Diagnosticado na adolescência com uma doença degenerativa que o condenaria à cegueira, ele contraria a lógica da medicina quando a perda de sua visão estaciona de forma inexplicável. Enquanto comanda o último cineclube de São Paulo e trabalha em uma videolocadora da periferia, Pedro planeja seu próximo filme, a obra que vai consagrá-lo. E, para animar as coisas, conhece a intrigante Cristal, uma ruivinha decidida, garçonete e estudante de física nuclear, que mexe com seu coração.

A perspectiva idealista de Pedro, porém, sofre sérios abalos. Atormentado por um segredo, ele parte com os amigos Fit, Mayla e Cristal numa longa viagem até Pirenópolis, em Goiás, a bordo de um Opala envenenado. Com câmeras nas mãos e espírito de aventura, a equipe técnica improvisada está disposta a usar toda a sua criatividade na filmagem feita na estrada ao sabor de encontros inesperados e de sentimentos imprevisíveis. E o jovem cineasta descobre que, quando o destino foge do script, nada supera o apoio de grandes amigos.

Sobre o autor:

Maurício Gomyde nasceu em São Paulo e desde os três anos de idade vive em Brasília – “disparado a cidade mais bonita do mundo”. Surpreendente!  é seu sexto romance. Além de escritor, ele também é compositor e baterista.

Confira as nossas resenhas: Eu sou a lenda.

Um náufrago ilhado por vampiros

| Por C.J. Fernandes

|12 de março de 2018

Lembro de estar sem sono em uma madrugada dessas e ligar a TV na rede Globo e assistir, na sessão Corujão (nem sei se ainda existe), um filme em que um homem vivia aparentemente sozinho no planeta e tinha vampiros (ou monstros, ou zumbis, nem sei o que eles eram!) como vizinhos. Décadas depois soube que uma adaptação daquele filme sairia de novo, agora com o nome de sua obra original (sim, era baseado em  um livro!!) e estrelado pelo astro do cinema Will Smith. Imediatamente lembrei daquela sessão de filme na madrugada durante a minha adolescência. Assisti à nova adaptação e fiquei curioso em relação ao livro, até porque Stephen King e George A. Romero já haviam declarado que esta foi uma obra que os influenciou em suas carreiras. Um é o mestre do terror e outro o mestre dos zumbis.  Só isso.

Na verdade, existem três adaptações para a obra de Richard Matheson e elas, pelo menos das duas que assisti, não têm muita fidelidade com o livro. Isso é normal em adaptações audiovisuais, mas aqui a diferença realmente é grande. Como a resenha é sobre o livro, vamos a ela!

Robert Neville é o único ser humano comum na Terra após uma doença transformar os demais  em vampiros. Ao que tudo indica ele é imune e não se torna um mesmo sendo mordido. O livro mostra a rotina de Neville, a interação com os vampiros que o cercam e as teorias para o porquê daquelas pessoas virarem vampiros e terem fraquezas por conta do alho, propagação da praga e aversão a crucifixos (e se um mulçumano fosse vampiro?).

Um dos destaques do livro é justamente sobre as teorias e investigações científicas que ele cria para pesquisar a origem e as características dos vampiros. Para a época, o livro foi escrito em 1954, e até para hoje, poucos foram as obras vampirescas que criam uma teoria acessível sobre a origem dos sanguessugas. Além de divertidas e razoavelmente possíveis , essas pesquisas fazem também com que Neville tenha dias menos tediosos o que dá ritmo e propósito à obra.

Outro destaque fica por conta de uma inversão  da típica história de vampiros. Em uma história tradicional, vemos uma criatura da sombras lendária, solitária ou com alguns semelhantes e vassalos, chegar a uma cidade, aterrorizando a ela e aos seus habitantes que até então tinham uma vida comum. Aqui é o oposto. O mundo é tomado por vampiros e Neville é o único sobrevivente (um náufrago)  que mora em uma casa bem guardada (a sua ilha) rodeado por vampiros . Aqui, ele é a lenda!

O livro tem uma diagramação muito boa, mesmo tornando um pouco mais gordinho, a sua leitura é rápida e fluída. Entretanto, não é um livro intenso, a leitura pode até não agradar aqueles que gostam de um ritmo mais acelerado, embora nas últimas páginas o autor dê um novo sentido a Neville aumentando a intensidade da trama até o seu desfecho lendário.

Diferente de outros livros, há uma sessão extra no final contendo um estudo universitário sobre a obra e uma entrevista com o autor, Richard Matheson, que faleceu em 2013. Fiquei curioso para conhecer outras obras dele, algumas estão na minha lista para os próximos anos (2018 está fechado) entre elas fiquei curioso com: Em algum lugar no passado, Amor além da vida, O incrível homem que encolheu e A casa infernal (todos já adaptados para o cinema).

 

Título: Eu sou a lenda

Autor: Richard Matheson

Editora: Aleph

Páginas: 336

Sinopse oficial: Uma impiedosa praga assola o mundo, transformando cada homem, mulher e criança do planeta em algo digno dos pesadelos mais sombrios. Nesse cenário pós-apocalíptico, tomado por criaturas da noite sedentas de sangue, Robert Neville pode ser o último homem na Terra. Ele passa seus dias em busca de comida e suprimentos, lutando para manter-se vivo (e são). Mas os infectados espreitam pelas sombras, observando até o menor de seus movimentos, à espera de qualquer passo em falso… Eu sou a lenda, é considerado um dos maiores clássicos do horror e da ficção científica, tendo sido adaptado para o cinema três vezes.

Sobre  autor: Richard Matheson nasceu em 1926 em New Jersey e é considerado um dos principais nomes da ficção científica, da fantasia e do terror. Suas obras já influenciaram grandes nomes da literatura como Stephen King, Anne Rice e Harlan Ellison.

Matheson roteirizou episódios para o The Twilight Zone e Star Trek, adaptou as obras de Edgar Allan Poe para o cinema e escreveu o primeiro trabalho para TV de Steven Spielberg. Além disso, teve muitos trabalhos adaptados para o cinema, como Eu Sou a Lenda, O Incrível Homem que Encolheu, Em Algum Lugar do Passado e Amor Além da Vida.

Onde encontrar o melhor preço: www.amazon.com.br

Confira as nossas resenhas: Extraordinário

Extraordinário manifesto a favor da gentileza!

I Por Ligia Borges

I 5 de março de 2018

Gostei muito desse livro. Gostei de tal forma que tive dificuldade para falar sobre ele. É que depois do lançamento do filme tanto já se falou sobre Extraordinário que me pego pensando: “o que eu poderia falar de novo? O que poderia dizer para te convencer a ver esse filme ou a ler a história de August Pullman, o nosso Auggie”.

Ao contrário do que costumo fazer, dessa vez assisti ao filme primeiro que diga-se de passagem foi sucesso de bilheteria.  Eu achei o filme maravilhoso, saí do cinema com uma vontade imensa de comprar o livro e tê-lo em minha estante. E uma coisa extraordinária aconteceu, alguns dias depois não é que ganhei ele de presente!?

Confesso que acho complicada essa relação livro versus filme. Nem sempre as adaptações funcionam bem, geralmente, uma das partes deixa a desejar, no caso a segunda a ser lida ou vista. Apesar de, na maior parte das vezes, a decepção ser maior com filme – até mesmo porque é difícil competir com a imaginação –, o contrário, é raro, mas também pode acontecer de você gostar do filme e se decepcionar com o livro. Não foi o caso. Em Extraordinário, o melhor aconteceu: terminei a leitura e a achei maravilhosa também, parabéns aos roteiristas porque a adaptação ficou sensacional.

Filme baseado no livro Extraordinário de R. J. Palácio foi sucesso de bilheteria
Filme baseado no livro Extraordinário de R. J. Palácio foi sucesso de bilheteria

Tanto o filme quanto o livro conseguiram nos contagiar com a história de vida de um garotinho forte que nos mostra que a essência é superior a qualquer aparência. Essa é uma história de empatia, compaixão, aceitação e gentileza. É também uma história que faz com que a gente volte a ser criança e se identifique com muitos das dificuldades vividas por Auggie. Afinal quem de nós aí não teve as suas angústias na escola porque era tímido, ou porque era” popular” demais, ou porque era ” cê-dê-efe” ou porque tinha alguma deficiência. Dificuldades fazem parte da vida, mas Auggie nos mostra que não importa o tamanho da barreira que nos é imposta, ninguém tem o direito de nos limitar.

Esse é um livro de muitas histórias, muitas lições. É uma obra também sobre o valor da amizade, a importância dos amigos, nossos companheiros de jornada. Aqui eu destaco os muitos ensinamentos trazidos pelos amigos de Auggie: Jack Will e Summer. O livro nos mostra que amigos também erram, mas compreender que errou, pedir desculpa e construir uma nova relação também é uma lição sensacional trazida pelo livro. Durante a leitura, tomei a liberdade de grifar alguns trechinhos que chamaram a minha atenção. Vou compartilhar abaixo com vocês para que pensemos juntos a respeito disso tudo e possamos ser melhores em nossas relações cotidianas:

“ Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil”

“ Não é tudo um acaso, se fosse, o universo nos abandonaria à própria sorte. E o universo não faz isso. Ele cuida das suas criações mais frágeis de formas que não vemos …talvez seja uma loteria, mas o universo deixa tudo certo no final. O universo cuida de todos os seus pássaros.”

“Pensando bem, não sei por que fiquei tão estressado com isso. É engraçado como às vezes nos preocupamos muito com uma coisa e ela acaba não sendo nem um pouco importante.”

“ Porque não basta ser gentil. Devemos ser mais gentis do que precisamos. Adoro essa frase, essa ideia, porque ela me lembra que carregamos conosco, como seres humanos, não apenas a capacidade de ser gentil, mas a opção pela gentileza…”

Por fim, queria dizer que essa é uma história que deve ser lida e vista por crianças e adultos.

Título: Extraordinário  

Autor: R.J. Palácio  

Editora: Intrínseca

 Páginas: 320  

Sinopse Oficial:

“Extraordinário” é um livro que conquistou diversos públicos e foi adaptado para o cinema ainda em 2017! Aproveite para ler o livro e conhecer essa história inteligente, sensível e leve que traz mensagens sutis e humanas, deixando uma verdadeira lição de vida sobre respeito e amor ao próximo. “Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo” August Pullman (Extraordinário)

Não julgue um menino pela cara

Não existe nome mais adequado para este livro: “Extraordinário”. De leitura dinâmica, prazerosa e envolvente, “Extraordinário” conta a história de August Pullman, o Auggie, uma criança que nasceu com uma séria síndrome genética que o deixou com deformidades faciais, fazendo com que ele passasse por diversas cirurgias e complicações médicas ao longo dos seus poucos anos de vida. Auggie foi educado em casa até os 10 anos, quando começou a frequentar o quinto ano em uma escola de verdade. Ser o aluno novo não é fácil, mas com um rosto tão diferente pode ser ainda mais difícil! Auggie vai ter que convencer seus colegas do colégio particular de Nova York que, apesar de sua aparência diferente, ele é um menino igual a todos os outros.

Sobre a autora: Foi diretora de arte e designer gráfica de uma grande editora por mais de vinte anos, até estrear na literatura com Extraordinário. Mora em Nova York com o marido, os dois filhos e dois cachorros. Também é autora de 365 dias extraordinários, Auggie & eu, Diário extraordinário e Somos todos extraordinários.

Confira as nossas resenhas: Carrie, a estranha

Ser estranha é errado?

| Por C.J. Fernandes

| 26 de fevereiro de 2018

Lendo o penúltimo livro da minha coleção de Stephen King (falta o Dr Sono), percebi que até agora os seus livros têm o mesmo antagonista, um monstro que tem várias faces, mas está lá sempre presente, fazendo as mesmas maldades, porém com suas diversas máscaras que quase sempre passam despercebidos. Sobre isso falaremos mais tarde.

A história situa-se na cidade de Chamberlain, estado do Maine. Margaret White, uma fanática religiosa, cria sozinha a sua filha Carrie, fruto do ” seu pecado” com o seu ex-marido. Sob a sua tutela, a menina tem uma vida privada do mundo exterior (praticamente ela vai da escola pra casa e da casa pra escola), não tem amigos, e , entre as suas habilidades, sabe costurar, rezar, apanha da mãe pelos seus pecados (isso não é beeem uma habilidade) e , (ah!) é telecinética. Isso mesmo! Ela tem telecinésia, que é a capacidade de mover objetos pela força da mente. Desde a sua infância, ela possui este dom, embora se aflore com o tempo, em especial após a sua menarca. Não sabe o que é isso? Carrie também não. Sua mãe vive num mundo de pecados tão particular que até a menstruação é um e, por isso, nunca explicou a filha o que era. Aliás qualquer coisa que ela faça é um ato pecaminoso, ela apanha, apanha, apanha e depois deve rezar dentro de um armário que a mãe montou,  uma espécie de altar peculiar.

Para não entrar em detalhes, logo no início vemos como ela sofre com as colegas da escola e, por isso, uma delas sente pena e tenta se redimir pedindo que o namorado a leve para o baile de primavera no lugar dela. Grande erro Sue, grande erro.

Difícil alguém não ter assistido a adaptação deste livro (foram três filmes!). Podem até não ter assistido a sua sequência sem sentido (Carrie 2, pra quê?), mesmo assim não entrarei em detalhes sobre a trama que tem seu ápice no baile escolar.

Este foi o livro que alavancou a carreira de King. Sendo um dos primeiros , e mais curtos,  de seus livros. É normal se dar um crédito pelo seu início de carreira, mas isso não acontece aqui, pois King mostra uma narrativa fluída e envolvente, fazendo com que conheçamos os personagens desta trágica história sem nos cansarmos e chegarmos ao início do fim ( a partir do capítulo 2) tão envolvidos com a trama que, simplesmente, não conseguimos parar de ler até a última página.

Mesmo sendo a primeira obra dele (é a quarta que leio) percebi que todas têm diferentes protagonistas (uma garota telecinética, uma família em crise, um grupo de amigos de infância ou um garoto em uma cadeira de rodas) e um único antagonista. Este não se veste de palhaço, vira lobisomem ou é um hotel assombrado, ele é muito mais perigoso do que todos esses juntos. Atenção para o spoiler: ele é o ser humano.  Em toda obra o(s) personagem(ens) principal(ais) confronta(m) com os seus demônios interiores e exteriores. Estes são seus colegas de escola, mães devotas, pais abusivos, e até padres. O que eles têm em comum? São humanos, com seu egoísmo, orgulho, prepotência e maldades presentes em todos nós, todos nós! O fator sobrenatural está sempre presente também, mas o horror pelo que o protagonista passa pode muito bem ser vivido na vida real, por meio dos nossos medos, da nossa experiência de vida. Quando lemos as suas obras, muitas vezes podemos nos ver enfrentando um lobisomem, um vampiro, um zumbi, isso seria até legal, mas quando vemos as situações de bullying, abusos e humilhações de forma geral, ah, essas sim nos dá um medo danado, pois é algo que pode acontecer conosco ou, mais provavelmente , já aconteceu e não nos traz boas lembranças.

Título: Carrie, a estranha

Autor: Stephen King

Editora: Suma de Letras

Páginas: 199

Sinopse oficial:

Carrie é uma adolescente tímida e solitária. Aos 16 anos, é completamente dominada pela mãe, uma fanática religiosa que reprime todas as vontades e descobertas normais aos jovens de sua idade. Para Carrie, tudo é pecado. Viver é enfrentar todo dia o terrível peso da culpa.

Para os colegas de escola e até para os professores, Carrie é uma garota estranha, incapaz de conviver com os outros. Cada vez mais isolada, ela sofre com o sarcasmo e o deboche dos colegas. No entanto, há um segredo por trás de sua aparência frágil: Carrie tem poderes sobrenaturais, é capaz de mover objetos com a mente.

No dia de sua formatura, Carrie é surpreendida pelo convite de Tommy para a festa – algo que lhe dá a chance de se enxergar de outra forma pela primeira vez. O ato de crueldade que acontece naquele salão, porém, dá início a uma reviravolta cheia de terror e destruição.

Chegou a hora do acerto de contas.

Sobre  autor: É autor de mais de cinquenta livros best-sellers no mundo inteiro. Os mais recentes incluem Revival, Mr. Mercedes, Escuridão total sem estrelas (vencedor dos prêmios Bram Stoker e British Fantasy), Doutor Sono, Joyland, Sob a redoma (que virou uma série de sucesso na TV) e Novembro de 63 (que entrou no TOP 10 dos melhores livros de 2011 na lista do New York Times Book Reviewe ganhou o Los Angeles Times Book Prize na categoria Terror/Thriller e o Best Hardcover Novel Award da Organização International Thriller Writers). Em 2003, King recebeu a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation e, em 2007, foi nomeado Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos.

Ele mora em Bangor, no Maine, com a esposa, a escritora Tabitha King.

Onde encontrar o melhor preço: www.amazon.com.br

Confira as nossas resenhas: Stephen King. A biografia: coração assombrado.

Ao mestre, com carinho (nem tanto)

| Por C.J. Fernandes

| 19 de fevereiro de 2018

Não lembro ao certo quando resolvi ler Stephen King. Acho que foi assistindo alguma resenha, em algum canal do Youtube,  da obra O Iluminado. Comprei o livro pelo Kindle e achei o romance lento. Dei mais uma chance com It e o autor me conquistou. É claro que o fato desse autor ser um dos mais adaptados pelos meios audiovisuais contribuiu para aumentar a minha curiosidade sobre ele e sua carreira. A biografia é completa, fala da história dos pais de King e do seu misterioso nascimento (nem nasceu, mas já criou surpresas!), da sua infância até a vida adulta. Até aí nada demais, até aí. O que muitos não sabem, inclusive este que vos fala, até ler esta biografia, é que King teve uma infância difícil. Aliás não só a infância, mas a vida toda.

Até fazer o sucesso que todos conhecem, King comeu o pão que o palhaço do bueiro amassou. Seu pai foi comprar cigarros (mais tarde ele começou a ler hqs de terror), ele vivia de favores na casa dos parentes (lia e começou a escrever as próprias histórias), quando entrou na faculdade só tinha um par de jeans (lia um livro diferente nos intervalos das aulas e não parou de escrever), concluiu os estudos casado (lendo e escrevendo), já com um filho e sem emprego (não parou de ler e escrever), conseguiu um emprego na lavanderia (escrevia e lia lá), morou num trailer (lá também), teve mais dois filhos  (adivinhem o que ele não parava de fazer?), começou a dar aulas e veio Carrie (calma, não foi o quarto filho).

Carrie (a estranha) foi o primeiro sucesso de Steve (para os íntimos), embora não tenha sido o primeiro que ele escrevera. O trajeto de King não foi diferente de outros autores. Ele lia muito, escrevia mais ainda e tinha vários contos publicados em revistas porém, não emplacara nada significativo até a história da garota telecinética. A biografia narra tanto a carreira profissional quanto pessoal. O destaque é para o seu relacionamento com drogas, com a família e como a sua vida mudou (ou não) depois do sucesso.

Como qualquer autor ou mesmo pessoa que tenha alcançado o sucesso, King não desistiu. Não faltaram adversidades, mas ele seguiu em frente, pelo que amava e pelos que amava (é claro que a esposa Tabitha, teve papel fundamental). Algumas biografias são cruéis e outras nos mostram histórias de superação. Ambas trazem histórias reais e humanas, assim como acontece na vida, e é, justamente, isso o que as tornam tão surpreendentes.

Ficha Técnica

Título: Stephen King. A biografia: coração assombrado.

Autora: Lisa Rogak

Editora: Darkside Books

Páginas: 315

Sinopse oficial:

Longa vida ao Rei. Stephen King completa 70 anos no próximo dia 21 de setembro de 2017 e para celebrar em grande estilo a DarkSide Books está relançando neste mês de aniversário a biografia do mestre numa edição especial para colecionadores.
Stephen King — A Biografia: Coração Assombrado foi um dos primeiros títulos lançados pela DarkSide, em 2013, e a edição original estava esgotada. Mas, como o próprio King diria: às vezes eles voltam! Todos os fantasmas e os segredos do autor de O Iluminado e It: A Coisa são revelados mais uma vez. Aproveite, quem é fã de verdade não pode perder esta nova edição, aprovada pelo mestre, que também comemora os 5 anos da DarkSide Books.

Com 300 milhões de livros vendidos e mais de 50 prêmios por suas obras, Stephen King tornou-se parte da história da cultura pop mundial. Um gênio que produz incessantemente há mais de quatro décadas, King está no Guinness Book como o autor vivo com o maior número de adaptações para o cinema.

Em A Biografia: Coração Assombrado, você vai viajar ao estado do Maine real, onde Stephen King nasceu, e entender de onde veio a inspiração para o universo fantástico de Castle Rock. Descubra quem é o homem por trás do mito.

Nesta obra indicada ao Prêmio Edgar Allan Poe de Melhor Biografia, a jornalista Lisa Rogak nos conduz, com rigor e pesquisa, pelo universo peculiar de Stephen King. Reconstitui sua infância difícil — marcada pelo ausência do pai, que estranhamente se conecta com o Brasil —, revela suas angústias e seus medos mais profundos como autor, resgata os primeiros contatos do jovem King com a escrita e sua luta contra a dependência química.

Sobre a autora: Lisa Rogak é uma autora americana, principalmente de biografias e outros livros de não-ficção . Ela também é escritora freelance.

Sua biografia de Stephen King foi nomeada para um Prêmio Edgar de 2010 para Melhor Trabalho Crítico / Biográfico.

Rogak cresceu em Glen Rock, Nova Jersey e agora mora em New Hampshire .

Onde encontrar o melhor preço: www.amazon.com.br

 

Confira as nossas resenhas: Rita Lee, uma autobiografia

Desculpe o auê

 

I Por Ligia Borges

I 12 de fevereiro de 2018

Quando eu ganhei a autobiografia da Rita Lee, confesso que não fiquei lá tão empolgada assim, porque a cantora sempre foi uma figura neutra para mim: não acompanhei a trajetória dos Mutantes, conhecia a Ritinha (depois da leitura me sinto confortável para chamá-la assim) de uma música ou outra, provavelmente, de alguma trilha sonora de novela do horário nobre. Foi mal aê, Rita!

O que mudou então?  Ler a autobiografia da Rita Lee é mergulhar nos bastidores da música brasileira nos idos dos anos 70/80/90, é conhecer um ser humano que viveu intensamente a concretização dessa frase de Caetano, “ a dor e a delícia de ser o que é”. A leitura é um convite a uma conversa franca e divertidíssima, muitas vezes, chocante. Não tem como não se impressionar, não sentir uma vontade imensa de conhecê-la.

E a Rita escritora me surpreendeu muito.  Ela conseguiu explorar com tamanha riqueza o estilo coloquial da narrativa. A impressão que se tem da leitura é que ela está sentada num banquinho ao nosso lado contando todos aqueles casos. Fofa!

Sem pudor ou falsa modéstia, Rita abre o verbo. Fala da relação com seus pais, sua família, traça um retrato muito intimo da sua infância e adolescência. Fala de coisas que deixa qualquer ser humano de cabelo em pé, mas me parece que ela lida com tudo isso com tamanha naturalidade, que a gente avança e percorre as páginas, segue o baile da leitura, sem parar para lamentar os fatos que ocorreram em sua vida.

Defensora dos animais, detestava ver qualquer mal trato aos bichinhos. Fofa! Consciente! A relação de amor com Roberto Carvalho é uma coisa linda de se ver, uma parceria belíssima, inspiração para diversas composições, “desculpe o auê, eu não queria magoar você” surgiu após uma briga do casal. A gente pensa: que bom Rita que, em meio a esse liquidificador que você escreveu nas páginas da vida e relatou para a gente aqui nessa biografia, você encontrou um parceiro desses, tem sua família que te acolhe, que são felizes.

“ Estranho ter sido o que fui sendo o que sou hoje. Parece que sempre tive a idade que tenho agora. Aos setenta tem-se a impressão de que a vida passou rápido demais, escrevendo a própria biografia, percebe-se que foi longa pra caramba. Vivi intensamente infância, juventude e maturidade, a fase velhice é novidade para mim, apesar de, claro, percebê-la mais familiar do que as anteriores” …

 

Ficha Técnica

Título:  Rita Lee, uma autobiografia

Autor: Rita Lee

Editora:  Globo Livros

Páginas: 296

 

Sinopse Oficial:  

“Do primeiro disco voador ao último porre, Rita é consistente. Corajosa. Sem culpa nenhuma. Tanto que, ao ler o livro, várias vezes temos a sensação de estar diante de uma bio não autorizada, tamanha a honestidade nas histórias. A infância e os primeiros passos na vida artística; sua prisão em 1976; o encontro de almas com Roberto de Carvalho; o nascimento dos filhos, das músicas e dos discos clássicos; os tropeços e as glórias. Está tudo lá. E você pode ter certeza: essa é a obra mais pessoal que ela poderia entregar de presente para nós. Rita cuidou de tudo. Escreveu, escolheu as fotos e criou as legendas – e até decidiu a ordem das imagens -, fez a capa, pensou na contracapa, nas orelhas… Entregou o livro assim: prontinho. Sua essência está nessas páginas. E é exatamente desse modo que a Globo Livros coloca a autobiografia da nossa estrela maior no mercado.” Guilherme Samora é jornalista e estudioso do legado cultural de Rita Lee.

 

Confira as nossas resenhas: Os sete

Sete vampiros portugueses chegaram ao Brasil …

I Por CJ Fernandes

I 5 de fevereiro de 2018

Parece piada mas não é. Imagina se sete vampiros portugueses fossem encontrados em uma caravela afundada há aproximadamente quinhentos anos depois de ter partido de Lisboa? Essa é a premissa de Os Sete primeiro livro do autor brasileiro André Vianco. A história, não a do livro, mas da tiragem dele, é muito interessante. Vianco bancou toda a primeira impressão usando o seu FGTS, pois acabara de ficar desempregado. Conquistando fãs numerosos, uma editora o procurou, garantindo mais cópias e expandindo a sua carreira de escritor. Atualmente são mais de vinte obras publicadas.

A história do livro (agora sim!) se inicia quando um grupo de mergulhadores encontram uma caravela portuguesa afundada na cidade de Amarração, no Estado do Rio Grande do Sul. Além de antiguidades e moedas da época, eles descobrem uma caixa de prata. Na superfície dessa caixa há sete nomes escritos (Inverno, Gentil, Acordador, Tempestade, Lobo, Espelho e Sétimo), além de uma advertência para não abrir a arca misteriosa. Como em um bom livro de terror eles ignoram a advertência e resolvem abri-la iniciando essa história de terror tupiniquim.

O livro de estreia de Vianco inicia em ritmo lento, muito lento, lento mesmo. Nessa velocidade, acompanhamos tanto os violadores da caixa quanto os vampiros, mostrando assim os dois pontos de vistas divergentes da história. Essa lentidão não se dá apenas em relação à construção de personagens, mas também pela ambientação dos vampiros despertos. Há  pequenas cenas de ação para acelerar um pouquinho o ritmo, que logo retorna para a segunda marcha. Mesmo assim, é divertido, isso mesmo , o diálogo entre os vampiros e as pessoas que eles conhecem pelo percurso, mostrando a sua inocência com os avanços da tecnologia e cultura nacional após meio milênio de hibernação é o ponto forte do livro. “Ô portuga”, é uma expressão usada muitas vezes, porém pejorativa apenas em uma cena. Em dois terços da história, ela vai pra quinta marcha, deixando o leitor com aquela impressão de: “Ah, ele deve estar sonhando!”. É tão brusca que você acha que pulou algumas páginas. Porém essa aceleração é importante para que a obra se conclua, devido  à enrolação anterior. Mesmo assim é um livro histórico para a literatura nacional, pois foi um dos primeiros de muitas obras brasileiras no gênero de terror que alcançou um público admirável de leitores daqui, virando um best-seller a partir da coragem do seu autor. Com isso surgiram vários escritores e leitores brasileiros no gênero e Vianco não parou mais de escrever. Aliás, ele criou um universo vampírico (roubei essa palavra do livro) único, brasuca, digno de Anne Rice.

Ficha Técnica

Título:  Os setes

Autor: André Vianco

Editora:  Aleph

Páginas: 432

Sinopse Oficial: Na trama ambientada em terras brasileiras, uma caravela portuguesa naufragada com mais de 500 anos é descoberta no litoral do país. Dentro dela, uma estranha caixa de prata lacrada esconde um segredo. Apesar do aviso grafado, com a recomendação de não abri-la, a equipe de mergulhadores que a descobriu decide seguir em frente, e encontra sete cadáveres. Esses corpos misteriosos são levados para estudos e tudo parece estar sob controle até o despertar do primeiro deles. O romance mistura diversos elementos já conhecidos na escrita de Vianco: terror, suspense, fantasia, sobrenatural, romance e o tema pelo qual o autor é reconhecido: VAMPIROS.

Lançado de forma independente em 2000, Os Sete, de André Vianco, conquistou uma multidão de fãs e se tornou um best-seller, vendendo mais de 100 mil exemplares. O sucesso foi tão grande que consagrou o autor como um dos mais importantes na literatura de fantasia nacional. É neste romance que Vianco atualiza o mito dos vampiros e o encaixa na realidade brasileira, apresentando ao leitor seres poderosos, cada um com uma característica única, porém, todos monstruosamente perversos.

A nova edição chega ao leitor com a ilustração de capa produzida pelo brasileiro Rodrigo Bastos Didier e o design é de Pedro Inoue, o mesmo artista de 2001: Uma Odisseia no Espaço e a da edição comemorativa de 50 anos de Laranja Mecânica.

Sobre o autor: Nascido em 1976, André Vianco começou a escrever na adolescência, bancando do próprio bolso seus primeiros livros e indo pessoalmente às livrarias apresentá-los aos vendedores. Nos anos 2000, produziu mil cópias de sua primeira obra, Os sete, que rapidamente conquistou o público e se tornou um best-seller. Hoje é considerado o principal expoente contemporâneo do terror e do suspense na literatura brasileira. Depois do sucesso de Os sete, Vianco escreveu mais vinte outras obras, que juntas venderam quase 1 milhão de exemplares.

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Confira as nossas resenhas: A série Napolitana

As muitas nuances da série napolitana de Elena Ferrante

I Por Ligia Borges

I 15 de janeiro de 2018

 

Agora que terminei o último livro da tetralogia escrita por Elena Ferrante, posso dizer que tenho condições de fazer uma análise sobre essa série, mas antes de começar essa nossa conversa sobre os livros e sobre o mistério em volta da identidade da autora, divido com vocês a angustia que é escolher um só aspecto da série para explorar nessa discussão.

Digo isso porque existe uma pluralidade de temas tratados por Elena Ferrante nestes livros que daria para escrever uma nova tetralogia crítica, brincadeira. Tentarei ser objetiva e escolher apenas um dos pontos que muito me tocou nessa história que é a questão da metalinguagem e o processo de falar sobre a escrita de um romance dentro da própria história contada pela narradora que é uma das personagens principais, mas antes de ressaltar esse aspecto de construção da narrativa, vamos nos situar a respeito dos livros e da autora.

Elena Ferrante que assina a autoria dos livros é na verdade um pseudônimo, a verdadeira identidade da autora ainda é mantida em segredo até hoje.  Ferrante nunca apareceu em público e suas entrevistas são todas por email.

A série napolitana que é sucesso no mundo todo abarca quatro volumes, com cerca de 1.700 páginas, lançados aqui no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da Editoria Globo. São eles: A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e A História da Menina Perdida.

A história se passa na cidade italiana de Nápoles, no pós-guerra, e o ponto de partida é a infância e os laços de amizade entre duas meninas: Rafael Cerullo, Lila, e Elena Greco, Lenu. Ao retratar a vida das personagens, um recorte da infância à maturidade, a autora aproveita para nos dar um panorama social da Itália que tenta se reerguer e se reestrurar após o fim da II Guerra Mundial. Nesse contexto, há uma enorme reflexão sobre a condição feminina em meio a uma sociedade em que o machismo predomina e impõe seus obstáculos ao próprio progresso de uma nação.

Um aspecto da prosa de Ferrante, um pouco mais técnico, que eu gostaria de destacar, como afirmei no início, é a metalinguagem.  A narradora dessa história é a própria Elena Greco que conta a sua vida e a relação com sua melhor amiga, Lila, e fala também do seu processo de criação e escrita desse romance, no caso o próprio que estamos lendo. A série napolitana é também uma obra sobre a escrita, sobre escrever um livro que retrate o peso de uma amizade e sobre a história de um bairro que tenta se recuperar de uma guerra.

As duas amigas gostam muito de ler e escrever também.  Lila sempre teve o dom da escrita, é chamada por Elena de a amiga genial, mas é obrigada a interromper os estudos para se casar e, assim, permitir os negócios da família numa sapataria. Já Elena prossegue os seus estudos e se transforma uma intelectual e escritora aclamada. Mas é Lila quem é criativa, Elena precisa de Lila para escrever as suas histórias.

Como toda série, em determinados momentos, o leitor se sentirá um pouco cansado, até mesmo porque Ferrante conferiu tanta humanidade a seus personagens que em alguns pontos da trama começamos a acha-los tão teimosos e chatos em seus dilemas cotidianos que a gente se entedia. Pensando bem talvez essa seja uma grande qualidade da prosa de Ferrante, a humanização, e o fato de nos sentirmos fadigados com as aventuras de nossos personagens ocorra justamente por ela ter conseguido retratar com sucesso o ser humano e suas contradições.

Título: Série napolitana composta por quatro romances: A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e A História da Menina Perdida.

Autora: Elena Ferrante.

Editora: Biblioteca Azul.

Sinopse oficial: A Série Napolitana, formada por quatro romances, conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. O primeiro, A amiga genial, é narrado por Elena Greco e cobre  da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela.

As duas se unem, competem, brigam, fazem planos. Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella. As duas seguem caminhos diferentes.

Mais que um romance sobre a intensidade e complexa dinâmica da amizade feminina, Ferrante aborda as mudanças na Itália no pós-guerra e as transformações pelas quais as vidas das mulheres passaram durante a segunda metade do século XX. Sua prosa clara e fluída evoca o sentimento de descoberta que povoa a infância e cria uma tensão que captura o leitor.

Páginas: 1700

Sobre a autora: Elena Ferrante é pseudônimo de uma autora italiana, festejada pelo mundo afora como uma das mais belas prosas contemporâneas. Elena nunca mostrou o rosto, nem sequer deu alguma pista da sua verdadeira identidade. Nas raríssimas entrevistas que concede, todas por email, costuma dizer que já fez “ tudo que podia ter feito pelos seus livros escrevendo-os”.

Confira as nossas resenhas: Superman: entre a foice e o martelo

Para o alto e avante, camaradas!!

I Por C.J. Fernandes

I 26 de dezembro de 2017

A DC Comics é famosa não apenas por ter na sua galeria personagens icônicos como Superman, Batman, Mulher Maravilha e Flash entre outros. A editora também se destaca por criar excelentes histórias alternativas, fora do seu cânone, que tornam-se referências para qualquer leitor de HQs. Assim foi com “O cavaleiro das trevas” de Frank Miller, “Reino do amanhã” de Mark Waid e Alex Ross, “Crise nas infinitas Terras” de Marv Wolfman e George Pérez e com “Superman – Entre a foice e o martelo”, com roteiro de Mark Millar e desenhos de Dave Johnson e Kilian Plunkett (na maioria das artes).

A história ocorre em uma realidade na qual a nave do bebê Kal-el, vinda de Krypton, cai na Ucrânia, ainda pertencente à União Soviética. A primeira questão a ser respondida é se o Superman soviético tem a sua essência de bom moço preservada ou se a ideologia socialista de Stalin o torna uma ameaça para o estilo vida capitalista norte-americano.

Independente da personalidade do homem de aço, o seu inimigo, o norte-americano, Lex Luthor, se preocupa mais com a sua vaidade do que com a segurança nacional, o que o torna o inimigo número um também nesse universo paralelo. Como estamos em outra realidade, a participação e origem de outros personagens, como a Mulher-Maravilha, Lois Lane, Lanterna Verde e Batman (que é a melhor na minha opinião) é alterada também, sendo, quase, a cereja do bolo dessa excelente história escrita por um dos meus autores favoritos, o escocês Mark Millar (o mesmo autor de “O procurado”, “Kick Ass” e “Kingsman” entre outros).

Seguindo a nossa política anti-spoiler, a história vale a pena para conhecermos um Superman por outra perspectiva, seguindo outra ideologia. O final é surpreendente, a cereja do bolo definitiva, embora, mais uma vez na minha opinião, poderia ter uma coisinha, um detalhe, uma questão de geografia, que faria o final perfeito para essa história já consagrada.

Título: Superman: entre a foice e martelo

Editora: Panini Comics

Sinopse oficial: Depois dessa surpreendente releitura de um conto mais que familiar, uma certa nave kryptoniana cai na Terra, trazendo um infante que um dia se tornará o ser mais poderoso do planeta. Mas seu veículo não caiu nos Estados Unidos. Ele não foi criado em Smallville, Kansas. Em vez disso, encontrou um novo lar em uma fazenda coletiva na União Soviética! Da mente de Mark Millar, elogiado roteirista de Authority e O Procurado, chega esta estranha e genial reinterpretação do mito do Superman. Com arte de Dave Johnson, Kilian Plunkett, Andrew Robinson e Walden Wong.

Sobre o autor: Mark Millar é um premiado autor de história em quadrinhos escocês nascido em Coatbridge, Escócia. Residente em Glasgow, Millar tornou-se o autor cujos trabalhos são os mais vendidos na América na década de 2000. Em 2004, criou o  Millarworld, selo que abriga suas histórias autorais. Suas obras mais conhecidas incluem: The Authority, a releitura de Os Vingadores de Stan Lee e  Jack Kirby,  Os Supremos, Marvel Knights Spider-Man, Old Man Logan, Superman: entre a foice e o Martelo, Ultimate Fantastic Four, a mega saga Guerra Civil e os autorais O Procurado, Kick-Ass e Kingsman: Serviço Secreto.

 

 

Confira as nossas resenhas: Olhos D’Água

O que há por trás desses Olhos d ’Água ?

I Por Ligia Borges

I  11 de dezembro de 2017

Olhos D’água, de Conceição Evaristo, é um livro curto no tamanho e grandioso em sua forma de ser. A obra reúne 15 pequenos contos e a gente já pensa que rapidinho se lê. Ledo engano. É impossível prosseguir a leitura de cada um desses contos, de forma instantânea e rápida, sem passar dias e dias refletindo sobre os temas ali tratados.

Dentro de cada conto habita uma história, um personagem que poderia ser o mesmo de todos os outros contos, um cotidiano que se repete em cada vida, uma sina que se cumpre em um destino, cronologicamente, determinado e condenado aos mesmos desfechos. Será fatalidade? Certamente não é. Não pode ser fruto do acaso esse conglomerado de vidas condenadas aos mesmos fins sociais. Tem alguma coisa muito errada nesse sistema.

Conceição Evaristo, com sua escrita leve, diria quase poética, dá voz e sentimentos a personagens anônimos que estão no noticiário nosso de cada dia. Mas a crônica jornalística na maioria das vezes se atém apenas aos fatos: “Tiroteio assusta moradores na favela” ou “Policiais e criminosos trocam tiros após invasão na favela” são algumas manchetes reais que a gente encontra nas notícias por aí.

No conto ‘ Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos’, Conceição nos fala sobre as brincadeiras de duas irmãzinhas gêmeas, moradoras da favela: ”Nos últimos tempos na favela, os tiroteios aconteciam com frequência e a qualquer hora… Zaíta seguia distraída em sua preocupação. Mais um tiroteio começava (…)”.  Zaíta procurava a sua irmã e a figurinha mais bonita do seu álbum, que retratava uma garotinha carregando uma braçada de flores. E aqui interrompo minha escrita sobre esse conto porque acredito que essa leitura deveria ser obrigatória para cada um de nós e quero dar a  vocês a oportunidade de conhecerem esse conto todo, sem que eu estrague a descoberta dessa leitura revelando o desfecho.

A leitura de Olhos d’Água nos possibilita andar pelas ruas de forma mais atenta, direcionando um outro olhar para o mundo e, principalmente, para os nossos semelhantes. Um olhar mais brando, de mais empatia, de mais tolerância, de mais compaixão, de mais amor. No conto ’Di lixão’, Evaristo conta a história de um morador de rua e a gente finaliza o conto e lembra que aquela pessoa deitada na calçada é um ser humano e tem uma história de vida. Pensemos sempre nisso na próxima vez em que olharmos alguém que perambula pelas ruas.

O livro, que conquistou o terceiro lugar na categoria Contos e Crônicas do Prêmio Jabuti de 2015, trata de uma série de questões sociais e existenciais. Pobreza, preconceito, autoestima, racismo, violência, educação e sexo são só algumas delas. Numa pluralidade de personagens composto por mães, maridos, amantes, namorados, vizinhos, patrões, filhos e crianças, há um destaque: as mulheres, sempre fortes, numa luta diária para serem respeitas, amadas, reconhecidas, valorizadas. Mulheres que carregam consigo a força da ancestralidade de suas raízes africanas.

Olhos D’Água é também um belíssimo conto que dá título ao livro. “Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe?”. Para saber o final dessa história, tem que ler o livro, tem que ler, tem que…

Título: Olhos D’Água.

Autor: Conceição Evaristo.

Editora: Pallas.

Sinopse oficial: Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida? Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida de ferro, equilibrando-se na “frágil vara” que, lemos no conto “O Cooper de Cida”, é a “corda bamba do tempo”. Em Olhos d’água estão presentes mães, muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira.

Páginas: 116

Sobre a autora*: Conceição Evaristo nasceu em 29 de dezembro de 1946 numa favela da zona sul de Belo Horizonte, Minas Gerais. Filha de uma lavadeira que, assim como Carolina Maria de Jesus, matinha um diário onde anotava as dificuldades de um cotidiano sofrido, Conceição cresceu rodeada por palavras. Teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica, até concluir o curso Normal, em 1971, já aos 25 anos.

Uma das principais expoentes da literatura brasileira e afro-brasileira atualmente, Conceição Evaristo tornou-se também uma escritora negra de projeção internacional, com livros traduzidos em outros idiomas. Publicou seu primeiro poema em 1990, no décimo terceiro volume dos Cadernos Negros, editado pelo grupo Quilombhoje, de São Paulo. Desde então, publicou diversos poemas e contos nos Cadernos, além de uma coletânea de poemas e dois romances.

A poeta traz em sua literatura profundas reflexões acerca das questões de raça e de gênero, com o objetivo claro de revelar a desigualdade velada em nossa sociedade, de recuperar uma memória sofrida da população afro-brasileira em toda sua riqueza e sua potencialidade de ação. É uma mulher que tem cuidado de abrir espaços para outras mulheres negras se apresentarem no mundo da literatura.

*Com informações consultadas em: http://www.palmares.gov.br/conceicao-evaristo