Confira as nossas resenhas: Sidarta

Vamos falar sobre Sidarta?

I Por Ligia Borges

I 24 de abril de 2018

 

Sidarta é um romance filosófico existencial escrito pelo alemão Hermann Hesse. Particularmente, o considero um livrinho muito especial, daquelas leituras que chegam até você em momento oportuno e te trazem uma nova perspectiva a respeito da vida e de muita coisa. Esse livro me foi recomendando há mais de dois anos por um amigo alemão de passagem pelo Brasil, mas como tudo na vida tem seu tempo, somente agora consegui parar e mergulhar nessa leitura.

É uma história que fala muito do encontro consigo mesmo e do autoconhecimento, é um livro sobre a observação atenta de si, da busca por respostas que só conseguimos enxergar, justamente, quando não estamos procurando por elas.

A obra propõe um mergulho na cultura oriental, mas não se trata de uma história sobre o budismo, essencialmente, apesar de ter sido inspirado na vida do príncipe Siddhartha Gautama, o Buda. Na verdade, Sidarta é uma obra da literatura ocidental que foi escrito por Hesse após uma viagem que o escritor fez a Índia em 1911. Hesse é um verdadeiro contador de histórias, um narrador com alma de poeta que soube como nenhum outro escritor, até então, transpor para o Ocidente a riqueza de valores e a grandiosidade da sabedoria presentes na cultura oriental.

O jovem Sidarta é o filho de um brâmane, a mais alta casta da sociedade indiana, que abandona sua família à procura de si mesmo, buscando uma vida de contemplação, visando atingir a plenitude espiritual e se mantendo fiel à sua própria alma.  Durante essa jornada, Sidarta vai percorrer extremos se doando a uma vida de contemplação, em que renega os prazeres materiais para viver na simplicidade e mergulhado em estado meditativo como um asceta. Porém, chega um momento em que ele percebe que não há sentido em renegar aos prazeres do mundo material movido pelo simples desejo de encontrar a felicidade. Neste ponto, Sidarta resolve mergulhar no outro extremo e se entregar aos deleites do desejo, vivenciando os prazeres materiais proporcionados pelo dinheiro, pela bebida, pelo sexo, pelos jogos. Porém mais uma vez, ele percebe que isso também não traz felicidade. É quando Sidarta sai em busca de um outro rumo, um caminho do meio que lhe traga a iluminação, equilíbrio e plenitude.  E nessa jornada, o jovem faz uma série de descobertas que se aplicam a todos nós e são universais a todos os homens.

“ Quando alguém procura muito –  explicou Sidarta – pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa ter uma meta. Mas achar significa estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma.”

O difícil é desapegar dessa busca e deixar-se fluir como o rio, colocando à margem todo o julgamento, ideia de controle, os apegos que nos aprisionam e nos impedem de vivenciar novas situações. É uma história sobre aceitação dos desafios da caminhada, sabendo que é o caminho percorrido, a jornada em busca das respostas com todas as situações postas que vai te preparar para o momento em que passará a entender a sua própria história e o seu propósito da vida.

Esta é uma obra que trata da simplicidade, sobre o estar aberto às circunstancias, e nos atenta para a importância de acolher a todos aqueles e a todas as situações que passam por nosso caminho, e, da mesma forma, saber aceitar as separações e as mudanças de rumo nos momentos em que elas forem postas na dinâmica deste mesmo caminho. Sidarta nos mostra a importância de aprender a fluir, como as águas calmas de um rio, sabendo cultivar a paciência, a observação, respeitando e aceitando a ordem e o curso natural do rio, digo da vida.

A história de Sidarta nos mostra ainda que a sabedoria é uma experiência pessoal que só se adquire vivendo, não tem como ser ensinada e aprendida. O processo é individual, é preciso que, ainda que metaforicamente, a gente saia para o mundo e construa a própria jornada rumo a iluminação.

Título: Sidarta

Autor: Hermann Hesse

Editora: Record

Páginas: 144

Sinopse oficial: ‘Sidarta’ é um romance filosófico que busca exaltar a busca pela sabedoria e é inspirado na vida de Siddhartha Gautama, fundador do budismo. Originalmente publicada em 1922, esta obra foi fruto de uma viagem realizada à Índia em 1911. O jovem Sidarta abandona sua casa e sua família à procura de uma vida de contemplação, visando atingir a plenitude espiritual e mantendo-se fiel à sua própria alma

Sobre  autor: Herman Hesse nasceu em 2 de julho de 1877 em Calw, uma pequena cidade de Wurtemberg, na Floresta Negra, Alemanha. De família sábia e criado em rigorismo religioso, cedo foi direcionado à vida eclesiástica. Após participar de quatro seminários, Herman deixa a carreira religiosa para tornar-se aprendiz de relojoeiro e, mais tarde, auxiliar de livraria. Desde seus 13 anos, Hesse era obstinado por ser poeta – “serei poeta ou nada”, dizia. A partir do contato com a esfera livreira, publica em 1899 Romantische Lieder (Contos Românticos) e, em 1904, escreve sua primeira novela, Peter Kamenzind, que acabou tornando-se um sucesso e o permitiu dedicar-se exclusivamente à literatura. Em 1923, no terceiro casamento, Herman adota cidadania suíça e escreve sua principal obra, Demian. Em 1946, ano em que obtém o prêmio Nobel de Literatura – especialmente por suas obras poéticas – não consegue receber o prêmio pessoalmente em Estocolmo devido à saúde debilitada. Herman Hesse faleceu em 1962, aos 85 anos de idade. Principais obras de Herman Hesser: Das Glasperlenspiel (O Jogo das Contas de Vidro – 1943) Der Steppenwolf (O Lobo da Estepe – 1927) Sidarta (1922) Demian (1919) Peter Kamenzind (1904) Romantische Lieder (Contos Românticos – 1899).

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