Confira as nossas resenhas: O Conto da Aia

O Conto da Aia, a distopia criada por Margaret Atwood

I Por Ligia Borges

I 25 de dezembro de 2018

 

Capa da nova edição de ‘O Conto da Aia’, feita por Laurindo Feliciano para a Rocco

Lançado em 1985, o romance O conto da Aia da escritora canadense Margaret Atwood voltou a ocupar a lista dos best sellers em 2016 e se mantem nela até hoje. Em ranking recente da Publishnews ,  que mostra uma prévia dos títulos mais vendidos no Brasil em 2018,  o livro ocupava o 4º lugar na categoria ficção.  A última lista com o ranking do ano deve ser divulgada no próximo dia 28.

As vendas da obra se intensificaram ainda mais com o lançamento da série para TV “ The handmaid’s tale” em 2017, distribuída pela plataforma de streaming Hulu, uma espécie de concorrente da Netflix. No Brasil, a série que foi premiada passou a ser exibida pelo canal Paramount, disponível para TVs por assinatura.

Outro fato que contribuiu ainda mais para aumentar a procura pelo “ O Conto” foi o contexto histórico político com uma onda conservadora que trouxe à tona o debate sobre as bases de sustentação da democracia, acentuado pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016 e pelo fortalecimento da candidata de extrema direita à presidência da França, Marine Le Pen, em 2017. Continue reading “Confira as nossas resenhas: O Conto da Aia”

Confira as nossas resenhas: Capitães da Areia

Quem são os Capitães da Areia?

 I Por Ligia Borges

I 8 de outubro de 2018

 

" e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche."
” e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche.”

Em Capitães da Areia, Jorge Amado lança mão da sua habilidade literária para trazer luz a um tema social que há muito perpassa a nossa sociedade e o faz por meio do relato de uma situação que, a meu ver, já se tornou atemporal. O autor nos convida a mergulhar nos subúrbios de Salvador para acompanhar a vida e o cotidiano dos meninos de rua: os temidos Capitães da Areia. Quem são? Onde vivem? O que fazem? Por que agem assim?

Um bando de crianças abandonadas entre 8 e 16 anos que vivem nas ruas de Salvador e são temidas e, ao mesmo tempo, ignoradas por uma sociedade que se sente vítimas delas.

Os garotos abandonados à própria sorte se refugiam num trapiche, lugar que utilizam para se abrigar, e preenchem sua vida – vazia de escola, moradia, comida, amor, respeito e carinho – com pequenos furtos, brigas  e diversos outros tipos de vandalismos que realizam pelas ruas de Salvador. Até aí, não vemos novidade alguma no relato dessa situação que qualquer reportagem de jornal daria conta de descrever. Continue reading “Confira as nossas resenhas: Capitães da Areia”

Confira as nossas resenhas: Amaldiçoado

Saber a verdade é um dom ou uma maldição?

| Por C.J. Fernandes

|24 de setembro de 2018

 

 

Esta obra é  daquelas que furam a fila por algum motivo. Desta vez foi a recomendação de um amigo que tinha falado muito bem deste autor, Joe Hill. O nome dele ficou na minha cabeça até eu lembrar de onde o conhecia. Ele é filho do autor Stephen King e, por motivos óbvios, resolveu usar o pseudônimo de um famoso compositor sueco para ter crédito no mercado literário como um ótimo escritor e não apenas como filho de um dos maiores autores de ficção e terror da atualidade.

Como toda primeira obra de um autor que leio, não espero muito. A expectativa deve aumentar com o  decorrer das páginas quando vejo se o livro é capaz de me prender ou não. . Diferente de muitos outros títulos,  esta história já tem os personagens estabelecidos na sua cidade, o que é novo (talvez não tão novo assim em histórias de terror) é um assassinato misterioso de uma jovem (só falta ser ruiva, bem, não falta mais) cujo principal acusado é o protagonista da história que jura inocência (algo típico também). O que surge nas primeiras páginas são os chifres também, ah os chifres! Voltaremos neles mais tarde.

A história se passa na cidade norte-americana  de Gideão, onde a rica família Perrish tem a sua fama negativamente alavancada pela acusação do seu filho mais novo, Ignacius, Ig, ter assassinado a sua namorada de longa data, Merrin, após uma discussão em uma lanchonete. Um belo dia Ig acorda com os chifres e a sua vida, que já parecia estar ruim o suficiente, vira um inferno, quase literalmente. Voltemos aos chifres.

Além de querer saber quem realmentematou Merrin (é claro), a curiosidade é grande para saber o porquê dos chifres aparecerem . Eles acompanham Ig por toda a trama mostrando os seus poderes, como, por exemplo, todos que falam com o protagonista, falam a verdade, indubitavelmente. O que seria um dom, parece se tornar uma maldição. A sinceridade pode machucar e até, literalmente, matar.

Além das situações inusitadas que Ig passa, as pessoas próximas a ele, não parecem querer tanto o seu bem assim. Todos os moradores de Gideão que cruzam o seu caminho (chifres) mostram seus verdadeiros demônios internos e seus desejos nada nobres.  Até aí tudo bem, mas apenas situações inesperadas e até engraçadas não vão conquistar este leitor aqui, mas (mas) quando descobrimos quem matou Merrin (e isso não é no final do livro não viu!?) e acessamos as suas lembranças, aí o livro começa!

Um bom livro deve despertar sentimentos em quem o lê, sejam eles bons (alegria, amor, felicidade…) ou ruins (raiva, ódio, tristeza…) e Amaldiçoado consegue com êxito! Atrevo- me a  dizer que este é um dos antagonistas mais odiados que eu já li!! Infelizmente, não posso dar spoiler aqui, mas os sentimentos que o personagem me transmitiu não foram nada nobres, a ponto de querer parar de ler em algumas  partes nas quais me senti desconfortável.

A minha grande expectativa era saber como seria o final do antagonista, se a origem dos chifres seria bem justificada e como estaria o protagonista no final disso tudo. Posso dizer que tudo foi respondido, se bem ou mal, você terá que ler o livro e tirar as suas próprias conclusões :).

P.S.: Logo após a leitura, fui assistir ao filme, estrelado pelo eterno Harry Potter, Daniel Radcliffe, e confesso que não me animei muito com adaptação.

Título: Amaldiçoado

Autor: Joe Hill

Editora: Arqueiro

Páginas: 320

Sinopse oficial

Ignatius Perrish sempre foi um homem bom. Tinha uma família unida e privilegiada, um irmão que era seu grande companheiro, um amigo inseparável e, muito cedo, conheceu Merrin, o amor de sua vida.

Até que uma tragédia põe fim a toda essa felicidade: Merrin é estuprada e morta e ele passa a ser o principal suspeito. Embora não haja evidências que o incriminem, também não há nada que prove sua inocência. Todos na cidade acreditam que ele é um monstro.

Um ano depois, Ig acorda de uma bebedeira com uma dor de cabeça infernal e chifres crescendo em suas têmporas. Além disso, descobre algo assustador: ao vê-lo, as pessoas não reagem com espanto e horror, como seria de esperar. Em vez disso, entram numa espécie de transe e revelam seus pecados mais inconfessáveis.

Um médico, o padre, seus pais e até sua querida avó, ninguém está imune a Ig. E todos estão contra ele. Porém, a mais dolorosa das confissões é a de seu irmão, que sempre soube quem era o assassino de Merrin, mas não podia contar a verdade. Até agora.

Sozinho, sem ter aonde ir ou a quem recorrer, Ig vai descobrir que, quando as pessoas que você ama lhe viram as costas e sua vida se torna um inferno, ser o diabo não é tão mau assim.

Sobre  autor: Joe Hill já ganhou diversos prêmios por seus contos, incluindo dois Bram Stoker, o mais importante da literatura de horror. É autor de A estrada da noite e O pacto e da coletânea de contos Fantasmas do século XX, todos publicados no Brasil pela Arqueiro.

Notícias: Poesia de cordel é declarada Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro

Poesia de cordel é declarada Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro

I Por Ligia Borges

I 20 de setembro de 2018

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J. Borges ganhou exposição comemorativa pelos seus 80 anos, promovida pela Caixa Cultural. Essa foto foi tirada em Brasília, mas a exposição tem rodado o país. Foto: Arquivo Pessoal.

Um dos estilos literários mais próximos da cultura popular, a poesia da literatura de cordel foi reconhecida nesta quarta-feira (19) como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. O título foi concedido por unanimidade pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A literatura de cordel teve início no Norte e no Nordeste, espalhando-se por todo o Brasil. O estilo retrata muito o imaginário coletivo, a cultura popular, a memória social e o ponto de vista dos poetas a respeito de acontecimentos vividos ou imaginados.

José Francisco Borges, mais conhecido como J. Borges, é um dos nomes mais conhecidos quando se fala de cordel. No início do ano, tive a oportunidade de visitar uma exposição, em Brasília, em que apresentava uma parte das suas obras e um pouco da sua vida. Uma lindeza! Continue reading “Notícias: Poesia de cordel é declarada Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro”

Confira as nossas resenhas: As intermitências da morte

O dia em que a morte decretou greve

I Por Ligia Borges

I 20 de agosto de 2018

 

 

A morte resolveu suspender as suas atividades. “ No dia seguinte ninguém morreu”. Assim Saramago começa a nos contar essa maravilhosa história que nos revela tanto sobre a genialidade do autor.  Com a sua imensa capacidade inventiva, ele dá voz e humanização a uma das figuras mais temidas da humanidade, a morte, e nos leva a refletir sobre o seu papel para o equilíbrio da vida e das instituições.

Sem nenhuma razão aparente, as pessoas simplesmente pararam de morrer num determinado país e, com o passar dos dias, uma série de instituições que dependiam da morte para existir começam a entrar em colapso. A igreja que vê o seu papel e até a sua própria condição de existência serem colocados em cheque porque sem a morte não há ressurreição, os hospitais, as casas funerárias e as seguradoras de vida são as primeiras instituições a se desesperarem diante do “ problema” e a pressionarem o Estado por uma solução. Este por sua vez se vê diante de uma crise sem saber ao certo quais medidas tomar para evitar um colapso social diante de situação tão inusitada.  O sistema previdenciário de pensões e aposentadorias, por exemplo, como ficaria diante da greve da morte? Continue reading “Confira as nossas resenhas: As intermitências da morte”

Causos Literários da Srta Borges: Se for de paz, pode entrar

Se for de paz, pode entrar

I Por Ligia Borges

I 2 de agosto de 2018

Já faz algum tempo que um leitor aqui do estoriando me fez um pedido. Ao ler o texto  O Jardim e a Literatura de Jorge Amado e Zélia Gattai  sobre a minha visita a Casa de do Rio Vermelho , em Salvador, ele me disse que gostaria de ler um outro texto menos informativo, menos jornalístico e mais subjetivo em que eu descrevesse as minhas emoções e sentimentos ao visitar aquele espaço. Esses dias, eu atendi o pedido dele e compartilho esse texto aqui com vocês, meus queridos leitores.

 

Brasília, 10 de julho de 2018

Evandro,

Já se passaram quatro meses desde que estive na Casa do Rio Vermelho, a residência onde viveu por mais de 40 anos o casal de escritores baianos Jorge Amado e Zélia Gattai. O tempo transcorrido desde que visitei o refúgio dos escritores fez com que eu tivesse uma outra visão da casa, dos objetos e até mesmo da  própria sensação experimentada durante aquela manhã em que me hipnotizei enquanto observava os detalhes e referências que marcaram a vida e a obra do casal dos escritores. O distanciamento dos fatos, às vezes, faz com que a nossa memória imprima uma espécie de idealização ou romantize algumas experiências que, neste caso, acredito se tratar de algo positivo, afinal de contas estamos falando de uma vivencia subjetiva e literária.

Se você tivesse me pedido para relatar essas experiências nos primeiros dias da minha visita, eu me prenderia a informações que apurei a respeito da vida do casal de escritores, das influências deles, da obra literária, como o fiz no outro texto, muito mais objetivo e informativo, pois a minha preocupação, certamente, era registrar os dados que colhi naquela visita e mostrar para as pessoas a existência desse espaço e o que ele oferecia em termos de insumo cultural para aqueles que estivessem de passagem por Salvador e quisessem conhecer um pouco mais da vida e obra dos escritores.

Passado esse tempo e superada essa necessidade informativa já que o outro texto cumpriu este papel que eu mesma me impus, quero compartilhar contigo aqui o que realmente senti visitando aquele espaço, me desprendendo um pouco da “obrigação” jornalística de te informar sobre a obra dos escritores, já que você se interessou mais pela minha experiência e emoções sentidas naquele espaço. Continue reading “Causos Literários da Srta Borges: Se for de paz, pode entrar”

Confira as nossas resenhas: Não leve a vida tão a sério

Como não levar a vida tão a sério?

 I Por Ligia Borges

I 10 de julho de 2018

 

O texto a seguir não se propõe a ser uma resenha propriamente dita, na verdade, se trata muito mais da minha experiência pessoal e de leitura de Não leve a vida tão a sério, de Hugh Prather.  Bem, não costumo ser muito adepta de livros que se propõem a traçar um manual de regras com passo a passo para você implementar ações de modo a melhorar a sua vida ou que tragam a receita de bolo para garantir a realização dos seus sonhos. Até já li alguns títulos por aí, mas ao contrário do que acontece com as obras literárias, que nunca abandono pela metade, o gênero autoajuda é o tipo que quando me enfadonha deixo logo pelo meio do caminho.

Segundo as pesquisas, esse tipo de leitura encontra-se entre as que mais têm aquecido o mercado editorial nos últimos tempos. As pessoas vêm cada vez mais se interessando pelos títulos que se propõem a fazer um trabalho de “ coaching”, ou seja, a ditarem a fórmula para que trilhem e obtenham sucesso nas mais diversas áreas: profissional, financeira, amorosa, espiritual e prometem a fórmula de sucesso para alavancar a mudança pessoal. As prateleiras das livrarias estão repletas desses títulos que prometem revolucionar a nossa forma de se colocar no mundo e oferecem a solução mágica para todos os nossos problemas. Mas será mesmo? Continue reading “Confira as nossas resenhas: Não leve a vida tão a sério”

Confira as nossas resenhas: O Quinze

O sertão de Queiroz

 

 I Por Ligia Borges

I 21 de junho de 2018

 

Antes de partirmos para uma análise, propriamente, de O Quinze, de Rachel de Queiroz, existem algumas curiosidades que eu gostaria de ressaltar. Vocês sabiam que esse livro foi escrito pela autora quando ela tinha 20 aninhos. Sim, “ com vinte anos de idade apenas, uma quase desconhecida escritora provinciana projetava-se na vida literária do país agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca”, dizia a crítica da época, ali pelos idos de 1930, quando o romance foi lançado.

E nessa hora é inevitável a gente fazer a comparação: o que eu estava fazendo aos vinte anos mesmo? Vá lá que nessa época eu já gostava de ler e escrever, mas certamente nem passava pela minha cabeça lançar um romance literário. E não estamos falando, certamente, de qualquer romance, mas de um texto com qualidade técnica e de um relato bastante humano e realista de um grave problema social.

Uma outra curiosidade que eu deixo aqui é o meu fascínio pelo sertão, pelo regionalismo e pelo romance de fundo social. “ Por ser de lá do sertão, do cerrado, lá do interior do mato, da caatinga do roçado…”, tomei a liberdade, a licença poética (adoro essa expressão), de catar esse trechinho de o ’ Lamento do Sertanejo’ – uma composição que não sei bem ao certo se é de Dominguinhos ou de Gilberto Gil ou dos dois juntos – só para ilustrar aqui a minha ligação com o sertão. Continue reading “Confira as nossas resenhas: O Quinze”

Confira as nossas resenhas: A insustentável leveza do ser

A insustentável leveza do ser

 I Por Ligia Borges

I 1º de junho de 2018

 

A leitura de A Insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, me fez refletir sobre como a experiência literária conversa com o nosso momento de vida e com a nossa bagagem de referências. Digo isso porque este livro me foi recomendando por uma amiga que tem muito bom gosto literário e todas as pessoas com quem conversei sobre ele, de certa forma, gostam bastante dessa história contada por Kundera. Não acho que o livro seja ruim, mas apenas o li no momento em que não estava tão predisposta a esta leitura, de modo que enrolei, divaguei, me perdi, enfim, o resultado foi que, para usar expressões da boa coloquialidade de nossa prosa falada por ai “não bateu”, não “demos liga”.

Para facilitar a nossa compreensão sobre esta história, resolvi dividir a minha análise em três eixos e com a finalidade de otimizar o nosso tempo, falarei rapidamente sobre cada um deles, mas me atentarei ao que mais me chamou a atenção dentro do meu processo de leitura.

Trata-se um romance filosófico que ao meu ver tem três linhas de sustentação: as relações amorosas entre quatro personagens (Tomas e Tereza, Sabrina e Franz) e essas aqui não me surpreenderam tanto, já as vi em vários outros romances que tratam de histórias de amor, na vida, essa parte me deixou um pouco entediada em alguns momentos, confesso, são relações complicadas, difíceis, permeadas de traições e paixões; o contexto histórico, pois essa história se passa em Praga, capital da República Tcheca no pós segunda guerra mundial quando a Rússia emerge como grande potência liderando o bloco socialista da União Soviética, essa parte é interessante porque mostra a situação de uma cidade em meio a uma realidade do pós- guerra, mas ainda sob atmosfera de uma nova guerra (a fria) ; e por último o eixo filosófico-existencial que foi o que mais me chamou atenção nesta leitura. Continue reading “Confira as nossas resenhas: A insustentável leveza do ser”

Contos misteriosos do Sr. Fernandes

Prólogo

Vale Doce era um bairro em forma de cidade. Não tão grande como uma capital, mas não tão pequeno como um bairro nobre. Poderia-se dizer que era uma cidade pequena, pelo tamanho, mas comum PIB elevado. Localizado estrategicamente em um vale rodeado por montanhas, uma floresta profunda e por um lago extenso, o Pêssego (pelo seu formato), ele tem um acesso difícil, mas não somente pela sua geografia, mas sim pelo custo de vida. Era conhecido pelo padrão de vida elevado, colégio de molde tradicional, e de excelência, um local seguro para se morar, porém, não são todos que podem pagar o preço.

Sabendo disso, muitas famílias vão para “O Vale” à procura de uma vida mais tranquila, porém sem abrir mão do luxo e do conforto. É importante também que se tenha um colégio com educação ímpar, mesmo para os mais desajustados. Para isso, a Escola de Ensino Médio Albert Einstein é a melhor opção. Professores com mestrado, tablets no lugar de cadernos, ternos como uniformes, nível de exigência alto, time de voleibol só para ocupar o tempo e os hormônios dos jovens, educação exemplar! Porém, nem tudo está no controle dos pais ou da escola, pois jovens são jovens, e eles gostam de festas.

Era a última festa antes das aulas. Como a maioria das festas não-oficiais da cidade, o local preferido era à beira do Lago Pêssego, ou Pesse, como eles gostavam de chamá-lo. Bebida e bebida à vontade, e a música alta saia dos carros tunados na beira do lago.

Sempre era o mesmo cenário, os nerds não eram convidados (a maioria não se importava, pois sábado era noite de RPG, vídeo game ou maratona Star Wars), os populares ocupavam o lugar de destaque, esses eram formados pelo time de basquete e pelas garotas populares da escola. Entretanto, como toda festa, tinha os seus penetras; pessoas que não eram convidadas, mas, como o lago era um lugar público, iam mesmo assim. Os motivos que eram diferentes; tinham os recém-chegados na cidade, e buscavam se enturmar e tinham aqueles que não se importavam pela alta sociedade escolar e iam justamente para irritá-los. Podemos destacar que, nesse grupo de “rebeldes” tínhamos várias tribos; os roqueiros, os góticos, os rappers, os skatistas e, claro, os sem tribos.

Da turma de vôlei, os destaques eram o ponteiro Alan sempre seguido pelo levantador Patrick e pelo líbero Nelson. Completava o time titular o atacante Fred, o central Yan e o outro ponta, Marcelo. Entre as garotas populares da escola e da cidade, o destaque era para o popular “quarteto fantástico”, formado por Léia, Cléo, Val e Penélope, a sua líder. Todos sabiam da relação dos jogadores e essas garotas, namoricos e paixões adolescentes, sabiam também que um jogador que ficasse com alguém fora do seu “meio” seria considerado esquisito. Pois Fred era o esquisito. Ele, embora tivesse um affair com a “fantástica” Cléo, se envolvia com a excluída Nathália, que, junto com as amigas Emília (chamada pelas demais de Emily) e Cristiana, a “Cris”, formavam um trio punk gótico, as “nêmeses” do quarteto fantástico.

A festa ocorria, já no fim da tarde, da mesma forma de sempre, som alto, bebedeira, brincadeiras sem graças, nenhuma novidade, até que Penélope percebeu que Cléo tinha o olhar fixo em algum ponto distante. Quando a jovem pôde encontrar para onde a amiga estava olhando, ela entendeu o porquê do olhar imóvel. A garota vira Fred conversando com Nathália e tentou puxar assunto com a amiga, tentando desviar a sua atenção:

— Amiga, daqui a pouco temos que ir embora, lembra que amanhã é dia de irmos ao abrigo? Já está anoitecendo e precisamos acordar cedo.

Cléo, não disfarçando a irritação, respondeu:

— Não entendo o que o Fred faz com aquela esquisita de botas — referindo-se às botas de Nathália, acessório quase inseparável da garota. — Eles estão conversando há um tempão! — ela tinha ignorado a sugestão da amiga e continuava a encarar o casal.

Penélope acreditava que a festa já tinha acabado para a amiga, pois Cléo estava muito irritada com a situação. Enquanto isso, Alan, o seu namorado, se aproximava das duas, já um pouco alterado pelo efeito do álcool:

— E aí garotas, estão com essas caras por quê? A festa mal começou! — disse abraçando as duas garotas.

— Nada, só o Fred com a Nathália. Isso é tão irritante! — respondeu Cléo, ainda olhando para o casal.

— O Fred? Cara, ele parece estranho às vezes mesmo, nem parece meu amigo! — falou o garoto soltando uma gargalhada.

— Não enche Alan, não vê que a Cléo gosta realmente do Fred? Parece que a Nathália só está com ele para de divertir às custas da Cléo, ela sabe que eles ficam — retrucou Penélope, sendo solidária à amiga.

— Calma gatinha, — disse o rapaz fazendo um carinho no rosto da namorada — se o problema é esse, é fácil de resolver. — deu um gole na lata que segurava e jogou-a fora.

Enquanto Penélope pegava a lata do chão, para colocar em algum lixo, o namorado se afastava das duas em direção ao casal que conversava distante. “O que ele está fazendo?”, pensou a jovem.

Ao mesmo tempo em que ele se aproximava do casal, as outras amigas, Val e Léia, se aproximaram:

— E aí Penélope, vamos embora? — disse Val para a amiga — O que vocês estão olhando?

Penélope e as suas amigas inseparáveis viram a cena de longe: Alan se aproximando de Fred, falando com rapaz como se a sua companhia não estivesse lá. Abraçando o amigo, ele lhe diz algo, mudando a fisionomia da garota de botas, que agora olha para os dois com seriedade e desconfiança. Alan fala mais alguma coisa e se afasta, retornando em direção à Penélope. Fred chama pelo amigo, que não responde, ele tenta conversar com a garota e ela o repele gesticulando as mãos, dando às costas ao rapaz e indo embora, se reunindo com as suas amigas, que até então, estavam despercebidas pelo quarteto que observava toda a situação.

Alan agora já estava próximo à Penélope com um sorriso malicioso enquanto Fred estava parado, pensando no que tinha acontecido.

— O que você disse a eles? — perguntou Penélope ao namorado.

— Nada demais Amor, só disse que tínhamos uma festa particular e que ela não estava convidada, pois tínhamos os pares perfeitos. — continuou com a malícia no rosto.

Penélope não pôde fazer mais perguntas, Fred vinha enfurecido atrás do capitão do time:

—Por que você fez aquilo, cara?! Não precisava disso, a garota foi embora puta da vida!

— Relaxa garanhão, aqui tem garotas melhores, a Cléo, por exemplo, ela sim é mulher pra você! Não aquele projeto de biscate que só quer saber de dinh….

Alan não terminou a frase, Fred já tinha avançado sobre ele e acertado um soco no rosto. Os dois se engalfinharam e rolaram no chão, mas os demais jogadores do time chegaram a tempo da situação piorar.

— Não devia ter feito isso seu babaca — Alan limpou o sangue que escorria no canto esquerdo da boca –— Você sabe que é verdade e que tá perdendo o seu tempo, eu fui seu amigo!

— Amigo?! Você é um idiota que pensa que é dono do time, dos jogadores e da escola, vai se ferrar!

Antes que a briga recomeçasse, Cléo puxou Penélope, pedindo para irem embora. A amiga concordou sem hesitação, chamando as outras duas, e argumentando aos garotos que poderiam ficar brigando a noite toda, mas para elas, já tinham visto o suficiente para acabar com a festa.

— Pra mim essa festa já deu também — disse Alan. — Você Fred, pode ir a pé pra casa, pois o seu “amigo” aqui não vai te dar carona.

Fred deu de ombros e foi embora, já conhecia o caminho do lago até em casa, pois, durante o verão, corria sempre nesse percurso, para chegar ao time em plena forma física.

A noite chegara e tinha esfriado muito, típico para o clima de floresta, a lua era Cheia, para os mais românticos, motivo para sair de casa e, para os mais místicos, motivo de cautela. Para Fred, isso não importava, ele estava bêbado, sozinho, com frio e com uma vontade imensa de urinar. Pensou em fazer ali, na beira da estrada mesmo, mas poderia ser facilmente incomodado pelos festeiros ou pelos seus “colegas” de time. Resolveu entrar na mata, para que não fosse perturbado por ninguém.

Durante o seu ato fisiológico ouviu um barulho, não se incomodou muito, porém o barulho foi se aproximando, como se duas pessoas estivessem vindo em sua direção.

— Q-quem está aí? — perguntou o jovem, já assustado.

Ninguém ou nada respondeu, porém o som da aproximação era nítido. O rapaz, tentando mostrar segurança, falou em tom mais alto:

— Alan, chega de babaquice por hoje cara, não estou com vontade pra mais brincadeiras idiotas — o rapaz mal tinha acabado de urinar e fechou o zíper, molhando as calças.

Novamente não houve respostas, mas sim um barulho diferente, definindo que realmente não eram duas pessoas, mas sim algum animal de quatro patas.

Sabendo que não era humano, que aquilo deveria ser um animal grande, e que começava a ouvir um rosnar crescente em sua direção, Fred começou a correr de volta à estrada. Pelo seu afoitamento, o rapaz tropeçou e caiu no chão rolando ribanceira abaixo, na parte mais densa da floresta.

Ele se levantou e começou a correr novamente. Só xingava e pensava em encontrar qualquer pessoa na estrada, Nathália, Cléo ou até o babaca do Alan! Percebeu que o que estava atrás dele se aproximara e, mesmo sem poder ver o que era, sabia que era algo grande, feroz e deveria estar com fome! O jovem esqueceu seus pensamentos e começou a gritar por socorro, porém a fera atrás dele o alcançou e com um salto o derrubou. Fred sentia o peso de um time inteiro em suas costas. Pensou em virar para tentar se defender daquele animal, mas não deu tempo. A besta começou a dilacerar as suas costas com as garras, arrancando-lhe a jaqueta do time, perfurando a sua carne até chegar às costelas. Fred sentiu dor no começo, pensava que animal poderia ser aquele. Se era uma onça, um cão selvagem ou um lobo, mas depois de alguns segundos, ele não pensava mais nisso, não sentia mais dor, só um frio que o consumiu até o fim.